Foto do primeiro Walkman lançado pela Sony.

Uma breve história de como ouvimos música

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27/3/15, 12h44 9 min 19 comentários

A música é onipresente em nosso cotidiano e é difícil imaginar que nem sempre foi assim. Raramente paramos para pensar em como os ouvintes usufruíam da música no passado e como a inovação tecnológica moldou nossas expectativas e hábitos de audição. No século XIX, ouvir música (tocada profissionalmente) exigia que o ouvinte visitasse um espaço dedicado, como uma igreja ou uma sala de concertos, num horário específico.

Obviamente, o caráter de evento implicava que o ouvinte não tinha influência alguma no programa e nos artistas que se apresentavam, nos horários do concerto ou seu local. Mais que isso, não havia alternativa para compartilhar a experiência de ouvir música com uma plateia, nem a opção de ouvir repetidamente a execução de uma mesma canção. Embora ainda hoje apreciemos shows, concertos, a maior parte da nossa experiência enquanto ouvintes não tem relação com apresentações ao vivo.

Ilustração de um grafofone de 1901.
Grafofone da Columbia, 1901. (Via)

A primeira mudança notável nos nossos hábitos de audição começou no fim do século XIX com a chegada da tecnologia para gravar e reproduzir uma performance musical. O gramofone (e seus concorrentes, o grafofone e o fonógrafo) permitiram, pela primeira vez aos ouvintes, apreciar a música em casa, na hora em que quisessem, e possivelmente sozinhos. O que antes era uma apresentação única, não repetível de um repertório pré-selecionado em um espaço para concertos, perdeu sua singularidade temporal e espacial.

Além dessas alterações contextuais, ouvir música gravada é diferente de um concerto; acima das óbvias deficiências técnicas do sistema de gravação e reprodução (largura de banda e alcance dinâmico limitados, acréscimo de distorção e ruído, ausência de ambientação), não há comunicação ou interação direta entre os músicos e a plateia. Isso tem consequências tanto para a gravação, quanto para os ouvintes: no estúdio de gravação não há espectadores, aplausos, o friozinho na barriga do palco, e a reprodução perde as expressões faciais e gestuais dos músicos e a interação com outros ouvintes. Uma gravação também convida o ouvinte a repetir as músicas, liberando um nível de audição analítica inédito na história.

Nas décadas seguintes, a inovação tecnológica focou em aprimorar a qualidade da experiência de ouvir música: microfones condensadores melhoraram a qualidade da gravação e a chegada dos LPs de vinil elevaram muito a qualidade da reprodução. Ao mesmo tempo, a estereofonia aprimorou significativamente a experiência de ouvir ao criar a ilusão de localização e envolvimento espacial.

O impacto da fita cassete

Mixtape no detalhe.
Foto: sharyn morrow/Flickr.

A fita cassete, apresentada pela Philips nos anos 1960, foi o primeiro meio largamente distribuído que permitiu aos consumidores copiar LPs e, posteriormente, CDs. Embora a qualidade da cópia jamais ficasse à altura da do meio original, avanços consistentes nas técnicas de magnetização e sistemas de redução de ruídos melhoraram a qualidade de áudio do cassete, passo a passo.

Mas a fita cassete tinha outra vantagem que tornava seu uso tão atraente: a música podia ser facilmente gravada de uma transmissão de rádio, sem a necessidade de uma mídia distribuída disponível. Mais importante, os usuários não eram mais obrigados às seleções e ordem de canções feitas pelos músicos, gravadoras e DJs; todo mundo podia criar suas próprias mix tapes, suas próprias playlists.

Embora da perspectiva atual isso pareça trivial, na época a criação facilitada de uma playlist personalizada deu aos consumidores uma liberdade sem precedentes: eles podiam selecionar e combinar músicas individuais, produzir suas próprias fitas para diferentes ocasiões ou amigos, e até criar mashups simples. Os ouvintes não eram mais forçados a aceitarem as escolhas de um DJ ou a ordem específica de músicas de um LP.

Entretanto, o impacto da fita cassete nos nossos hábitos não parou por aí. Como a mídia era compacta e não estava suscetível a erros quando em movimento, ela finalmente permitiu o uso de dispositivos de música portáteis com qualidade sonora razoável. Os ouvintes podiam apreciar suas músicas em qualquer lugar com seus Walkman, lançado nos anos 1980. A música podia, enfim, ser ouvida o dia todo, independentemente da atividade. Mais que isso, o crescente uso de fones de ouvido converteu o ato de ouvir música a uma experiência pessoal e íntima, não necessariamente compartilhada com os demais.

A era digital

Logo do CD.
Foto: Douglas Heriot/Flickr.

Mais ou menos na mesma época, a era digital do consumo de música começou com a chegada do Compact Disc (CD). O CD rapidamente substituiu outras mídias na sala de estar como um meio robusto e fácil de manusear com alta qualidade a um custo módico. O lançamento do CD também marca a estagnação da tendência crescente na qualidade do áudio no mercado de consumo; tentativas da indústria de introduzir mídias mais avançadas de alta resolução, como o SACD (Super Audio CD) e o DVD-Audio, falharam.

No alvorecer do novo milênio, dois desenvolvimentos tecnológicos, mais ou menos simultâneos, viraram de cabeça para baixo o mercado de tal forma que muitos modelos de negócio estabelecidos na indústria da música foram condenados: a codificação de áudio perceptivo (com seu representante mais proeminente, o MP3) e as crescentes comunidades de Internet e redes ponto-a-ponto (P2P, como o Napster).

O MP3, ou mais precisamente o ISO MPEG-1 Layer 3, ainda é uma das formas mais populares do áudio codificado. Ele permite a transmissão e o armazenamento de arquivos de áudio a uma fração da taxa de bits sem compressão (cerca de 1/10 da taxa de bits de um CD), mantendo a qualidade percebida de áudio igual ou levemente menor. O formato MP3 tornou-se tão popular que para muitos consumidores não há diferença entre música online e “MP3”, independentemente do formato de compressão dos dados de áudio usado.

A codificação de áudio perceptivo permitiu aos usuários enviar e baixar arquivos de música a velocidades consideráveis, mesmo nas lentas conexões discadas da época. Redes ponto-a-ponto, como o Napster, rapidamente viabilizaram a troca de quantidades vultuosas de dados musicais. De repente, a troca de música não estava mais limitada a um pequeno círculo de amigos próximos; ela se expandiu em uma comunidade online internacional.

O acesso instantâneo a acervos de músicas de milhares de usuários levou a formas extras de navegar e descobrir novos conteúdos. A percepção da música como algo que se compra em um suporte físico, como um CD, começava a desaparecer, e os consumidores passavam a ver a música mais como dados disponíveis gratuitamente na Internet. Hoje, serviços de streaming, como Pandora e Spotify, mudam mais uma vez os paradigmas na medida em que os usuários não entendem mais a música como algo a ser possuído (por exemplo, uma coleção de vinil ou uma pasta virtual no PC com arquivos), mas como algo a ser acessado e executado quando quiserem.

Moça na rua com headphones.
Foto: Sascha Kohlmann/Flickr.

Em adição às mudanças nos hábitos de audição e alterações no acesso e conceito de música, as expectativas dos ouvintes também têm mudado significativamente. Isso é especialmente claro nas gravações de música “clássica”, tradicional. Enquanto gravações históricas tendem a ter pequenos erros de execução e imprecisões, o nível de perfeição subiu com o passar do tempo. Gravações modernas atingiram um grau de perfeição na musicalidade técnica que é difícil ou mesmo impossível de se alcançar em uma sessão ao vivo. A possibilidade de editar gravações fatiando e colando pedaços de várias sessões leva a centenas de pontos de edição em cada música. O número de pontos de edição tem crescido em uma cadência estável por décadas. O ouvinte moderno está tão acostumado a ouvir entonações e timing perfeitos que as expectativas não só para gravações, mas para apresentações ao vivo, aumentaram de acordo.

Todos os aspectos que envolvem a forma como ouvimos música se alteraram nos últimos um ou dois séculos. Ouvimos música o tempo todo (em vez de apenas ocasionalmente, em um concerto), ouvimo-las na privacidade oferecida pelos nossos fones de ouvido (em vez de em uma plateia), ouvimo-las em qualquer lugar (em vez de locais específicos para eventos), esperamos execuções tecnicamente perfeitas (em vez de permitirmos falhas ocasionais), temos acesso a todas as músicas de todas as épocas e podemos ajustar a playlist ao nosso gosto (em vez de ouvir algo pré-determinado por um diretor musical) e tendemos a encarar músicas gravadas como algo que está disponível gratuitamente (em vez de algo a ser comprado e guardado).

Todas essas mudanças foram desencadeadas ou no mínimo amplificadas pela introdução de novas tecnologias. É uma presunção segura a de que nossos hábitos mudarão ainda mais com a chegada de tecnologias mais sofisticadas; por exemplo, na medida em que a linha que separa produtores profissionais de amadores começa a borrar com o barateamento da tecnologia de produção moderna, a distinção entre o produtor e o ouvinte que apenas consome música pode também borrar com as alternativas tecnológicas que permitem ao ouvinte interagir, mixar e modificar o conteúdo em tempo real. Será fascinante observar como a tecnologia influenciará a forma como ouvimos música no futuro.


Alexander Lerch é professor assistente de tecnologia musical no Instituto de Tecnologia da Georgia, co-fundador da zplane e autor do livro An Introduction to Audio Content Analysis, sem tradução para o português. Este post foi publicado originalmente em seu blog e traduzido e republicado no Manual do Usuário com autorização do autor.

Tradução: Rodrigo Ghedin.

Foto do topo: Grant Hutchinson/Flickr.

  • Chicão

    Falando nisso, vcs estão sabendo da venda do Spotify?

    • Vitor Nunes

      Quem vai “comprar!?

      • Chicão

        Ninguém sabe.
        Apenas dizem que a venda será de 14 bilhões de dólares.
        O comprador será anunciado na próxima quarta.
        Porém, mts estão com pé atrás pq a próxima quarta é dia 1 de abril. Então acham que pode ser uma pegadinha.

        • Eu não vi nada a respeito, mas pelo o que leio de mercado e etc, não acho que o Spotify vai se vender muito fácil (assim como o Snapchat). Os caras tem um serviço funcional, com bastante investimento e aos poucos chegando mais próximos de ser sustentável. Não sei não. Impossível duvidar, mas eu acho que os caras Não seriam idiotas de se entregar a outra empresa agora.

          • Henrique Scherer

            O Spotify está melhorando, mas ainda me parece longe de estar sustentável economicamente (a longo prazo). O crescimento, no entanto, é impressionante.

          • Até onde eu tenho acompanhado, eles ainda estão longe de ser economicamente viável e por isso tem tanta gente desconfiando ou desistindo da ideia. Mas é admirável que em um mercado tão fodido quanto o da música, eles estejam conseguindo alguma coisa. No fundo, eu acho que os artistas e distribuidoras vão ter que baixar a bola, ou seja, exigir menos dinheiro e com isso o Spotify e outros serviços de streaming começam a se tornar mais viáveis. Uma vez eu vi uma palestra do Partido Pirata e, apesar de não concordar com tudo que eles dizem, achei bem interessante quanto eles questionaram: “Por que alguns artistas ganham milhões e outros não? Eles realmente precisam ganhar 100 milhões por ano, 1 milhão não está bom?” – Claro que é um questão do capitalismo e blá blá blá, mas é um ponto.

        • Tem muita cara de 1º de abril.

    • Joao Onedirectioner

      Não duvido. O Facebook é o possível comprador já
      que o Google tá testando o Youtube e o Music, a Apple o iTunes e o Beats e
      a Microsoft o Xbox. Amazon e Yahoo chuto que não podem bancar valores tão altos e apostariam em concorrentes menores. Acho que o Facebook ainda compra a Netflix também.

  • Gostei de “escutar” seu belo texto, Alex! :)

    (sim, eu sei que a excelente tradução é do tio Ghedin)

  • Ranner Barbosa

    Eu fiz um trabalho sobre isso tudo para faculdade ano passado (foi em grupo e fizemos correndo, logo ficou meia boca) quando achar postarei aqui

  • Gostei bastante do texto. Se alguém aqui gosta de música nesse aspecto (influência cultural, social e econômica) sugiro ver os documentários do Red Bull sobre os novos estilos musicais
    http://www.redbullmusicacademy.com/magazine?tag=films

  • Luis Cesar

    Realmente, pra quem acompanhou alguns períodos dessa evolução, é interessante ver como a forma de ouvir música mudou. E vai continuar mudando.

    Quanto ao streaming, mesmo com o Wifi, pelo menos lá fora as pessoas possuem redes de dados decentes e o Tidal está chegando pra oferecer músicas com qualidade lossless. É um processo natural de consolidação e evolução. Sem contar os fones, (cada qual com seu público) cada vez mais sofisticados.

    Hoje eu ouço música pelo smartphone mas teve um tempo em que, meus companheiros inseparáveis eram estes aí na foto. Um nos anos 90 e o outro nos anos 2000:

    Desculpem a qualidade da foto, foi tirada com a câmerDa do Moto X 2014.

    • Vagner “Ligeiro” Abreu

      Como eu curtia este walkman cassete. Diferente de ti, usava mais nos anos 2000, quando barateou mais. Tinha um som ótimo, apesar de eu sofrer um pouco com o rádio FM (se bem que o tive na época da proliferação de rádios piratas…)

      O da direita nunca tive deste modelo, mas já peguei “chineses”.

      • Luis Cesar

        Esse Walkman comia duas pilhas alcalinas por semana praticamente. Os K7’s estão numa caixa, acho que o zinabre deve ter acabado com a fita magnética toda já :D

        Já esse mp4 levava quase 2 semanas até pedir carga, sem contar que 4GB na época eram mais do que suficientes pra ouvir minhas músicas (aac, mp3 e wav). Com um fone in ear mediano ele ainda dá pro gasto, acima disso é pedir demais, haha

        • Vagner “Ligeiro” Abreu

          Se eu escutasse mais em FM (coisa comum), durava uma semana,as vezes uma semana e meia. Se eu escutasse só fita (mais em viagens ou ida ao trabalho/passeio), durava apenas umas 3/4 horas.

          Falando nestes rádios, me lembrei de um da Sony que tive e ganhei, que era só FM. Pena que estragou, mas era um excelente rádio =)

  • Vander Leal

    Dependendo do músico em questão, algumas coisas são muito bem vindas, como por exemplo:
    “a reprodução perde as expressões faciais e gestuais dos músicos e a interação com outros ouvintes.”

    :D

  • Marcus Nascimento

    Eu sou dos que não consegue “migrar” para o streaming. Eu sou dos que coleciona. Principalmente pelo fato de ser um apreciador do “lossless”.

  • Ghedin, um achado esse texto. Passei quase que por completo pelas etapas descritas e me lembro da letra e surpresa ao me deparar com cada novo avanço e tecnologia.
    A música realmente significa muito para nós e nos ajuda a transmitir e trabalhar nossos sentimentos, por isso nossa constante necessidade de estarmos próximos dela.
    Continue realizando essa curadoria de textos e nos traga mais traduções de artigos como esses. A internet brasileira e seus leituras agradecem.