Pós-verdade aplicada ao Brasil

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22/11/16, 9h52 2 min Comente

O Dicionário Oxford escolheu “pós-verdade” como a palavra do ano. O termo, que nem é novo, é um adjetivo definido como “relativo ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais.” Diz respeito, neste momento, à proliferação de notícias falsas ou distorcidas em redes sociais que servem de combustível ao viés de confirmação. Mas não é um problema só delas, do Facebook e do Twitter. É nosso.

Venho pensando sobre como combater esse problema. Há muitos riscos envolvidos, do chatear/brigar com alguém até o de soar condescendente ou, pior, autoritário.

Talvez a melhor via, ou pelo menos a mais conciliadora e promissora, seja a mesma usada por quem produz todo esse chorume: a da (no caso, boa) informação. Argumentos bem articulados, contrapontos bem fundamentados, num processo longo, tortuoso e sem garantias. (Sigo aberto, e pensando também, em outras iniciativas!)

Não é um problema só da eleição presidencial dos Estados Unidos ou do Brexit no Reino Unido. Já acontece aqui, no Brasil. No grupo da família no WhatsApp, nos perfis dos seus amigos no Facebook. Como evidencia este levantamento publicado hoje (“Notícias falsas da Lava Jato foram mais compartilhadas que verdadeiras”), o problema é real, urgente e pede a nossa atenção.

Mark Zuckerberg admite problema com notícias falsas no Facebook e anuncia medidas para contê-las

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19/11/16, 11h26 4 min 5 comentários

O resultado das eleições para a presidência norte-americana expôs um problema fundamental do Facebook: a falha em conter a disseminação de notícias flagrantemente falsas na plataforma. Após um breve período de negação, Mark Zuckerberg admitiu que algo precisa ser consertado e apresentou algumas medidas nesse sentido.

A admissão não veio facilmente. Antes, ele tentou relativizar o problema das notícias falsas no Facebook algumas vezes. Em 13 de novembro, escreveu em seu perfil:

De todo o conteúdo no Facebook, mais de 99% do que as pessoas veem é autêntico. Apenas uma pequena quantidade é de notícias falsas e boatos. Os boatos que existem não são limitados a visões partidárias ou mesmo à política. No geral, isso torna extremamente improvável que boatos tenham alterado o resultado dessas eleições em uma direção ou outra.

Mas evidências apontam o contrário. O conteúdo desse tipo pode até ser pouco, mas faz barulho e se espalha incrivelmente bem.

É de bom tom esclarecer que a crítica não é no sentido de que o Facebook determinou o resultado da eleição, mas sim que envenenou o debate ao reforçar posicionamentos com base em notícias flagrantemente falsas. Em alguns casos, deliberadamente falsas, notícias fabricadas apenas pelo potencial de viralização e lucratividade. E, independentemente das eleições, o sucesso dessa abordagem aponta que há um problema endêmico ali.

Em uma publicação na noite de ontem (18/11), Zuckerberg reconheceu o problema:

Esses problemas aqui são complexos, tanto técnica como filosoficamente. Acreditamos em dar voz às pessoas, o que significa errar para o lado de deixar as pessoas compartilharem o que elas quiserem sempre que possível. Precisamos ser cuidadosos para não desencorajar o compartilhamento de opiniões ou, equivocadamente, restringir conteúdo preciso. Não queremos ser árbitros da verdade, mas em vez disso, confiar em nossa comunidade e em terceiros confiáveis.

Embora a porcentagem de desinformação seja relativamente pequena, temos muito trabalho pela frente em nosso cronograma. Normalmente, não compartilhamos especificidades sobre os nossos projetos em curso, mas dada a importância dessas questões e o tanto de interesse [que há] no assunto, quero delinear alguns dos projetos que já começamos:

  • Detecção mais forte. A coisa mais importante que podemos fazer é melhorar a nossa habilidade de classificar a desinformação. Isso significa melhores sistemas técnicos para detectar o que a pessoas sinalizam como falso antes mesmo que elas façam isso.
  • Facilitar denúncias. Tornar muito mais fácil para as pessoas denunciarem histórias como falsas nos ajudará a capturar desinformações mais rapidamente.
  • Verificação por terceiros. Existem muitas organizações respeitáveis de fact checking e, embora nós já tenhamos entrado em contato com algumas, planejamos aprender com muitas outras mais.
  • Alertas. Estamos explorando [a ideia de] etiquetas em histórias que foram sinalizadas como falsas por terceiros ou pela nossa comunidade e exibir alertas quando as pessoas leem ou compartilham elas.
  • Artigos relacionados de qualidade. Estamos elevando o nível das histórias que aparecem nos artigos relacionados abaixo dos links do feed.
  • Acabar com a economia das notícias falsas. Muito da desinformação é direcionado pelo spam financeiramente motivado. Estamos tentando acabar com essa economia com políticas de anúncios como a anunciada no início da semana e melhorando a detecção de fazendas de anúncios.
  • Ouvir. Continuaremos trabalhando com jornalistas e outros da imprensa para receber suas opniões, em especial para entender melhor seus sistemas de checagem de fatos e aprender com eles.

São ações promissoras que se somam à exclusão de sites de notícias falsas do programa de publicidade do Facebook, medida anunciada segunda-feira (14/11) e que foi adotada também pelo Google.

Twitter implementa novas ferramentas para conter abusos

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17/11/16, 9h16 2 min Comente

Das redes sociais mainstream, o Twitter é uma das mais tóxicas. Embora a política de uso proíba conteúdo ofensivo, a rede é repleta dele — e pouco faz no sentido de inibir esse tipo de comportamento. O problema é tão grave que atrapalhou as negociações de compra do Twitter pela Disney.

Antes tarde do que mais tarde, medidas começaram a ser tomadas. O Twitter anunciou melhorias nas opções de silenciar, permitindo agora ignorar termos nas notificações e conversas inteiras com poucos cliques. Outra boa medida foi incluir no formulário de denúncias a opção “Direciona o ódio contra uma raça, religião, gênero ou orientação sexual”, adição combinada com, segundo a empresa, treinamentos da equipe para lidar com esse tipo de situação:

(…) treinamos novamente todas as nossas equipes de suporte em nossas políticas, incluindo sessões especiais de contextualização histórica e cultural de condutas de ódio, e implementamos um programa de atualização continuada. Também melhoramos nossas ferramentas e sistemas internos a fim de lidar com mais eficiência com essa conduta quando ela nos é relatada. Nosso objetivo é [ter] um processo mais rápido e transparente.

Mais importante que as novidades técnicas, é o reconhecimento de que há um problema fundamental ali que precisa ser sanado.

O novo MacBook Pro e o caso de pensar no futuro sem esquecer o presente

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3/11/16, 9h02 2 min Comente

Desde que a Apple anunciou o novo MacBook Pro, um grande debate surgiu no âmago da comunidade mais fervorosa de usuários do produto. Desenvolvedores e outros profissionais que esperavam uma máquina mais poderosa e versátil se decepcionaram com o que foi apresentado. O futuro do computador profissional da Apple é menos “pro” que os disponíveis até então.

As principais queixas são em relação ao desempenho (limitado a 16 GB de RAM) e, principalmente, às portas e conexões — ou a falta delas. A versão de entrada, carente da nova Touch Bar, tem duas portas USB-C/Thunderbolt 3 e uma saída de áudio analógica (de 3,5 mm, a mesma removida do iPhone 7). As mais caras elevam o número de USB-C/Thunderbolt 3 para quatro.

Não há dúvida de que essa conexão é futuro, mas ainda não chegamos nele. Quem compra um MacBook Pro desses novos hoje, precisa necessariamente de um ou alguns adaptadores. É inevitável em qualquer período de adaptação, e nem é o ponto a se discutir. A questão é se essa investida não foi prematura. Manter uma porta USB tradicional ou o slot de cartões SD não tiraria o aspecto “forward thinking” do novo MacBook Pro e seria um facilitador de quem ainda depende deles — e é difícil imaginar alguém que já não dependa de nenhuma das conexões sacrificadas. Seria pensar no futuro sem esquecer do presente.

Não falemos da remoção do MagSafe ou do novo teclado. Soam como retrocessos.

Para fechar, dois links:

  • Um compilado de várias reações de desenvolvedores e jornalistas sobre o novo MacBook Pro. Não me lembro de uma revolta tão grande entre os usuários mais emotivos da marca.
  • Maciej Cegłowski invoca o espírito de Benjamin Button e escreve sobre o velho MacBook Pro como se ele fosse sucessor do novo. O pior? Faz sentido.

As novidades da Asus — incluindo Zenfone 3

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25/10/16, 20h17 3 min 6 comentários

A Asus anunciou nesta terça-feira (25) seis novos produtos: um rival do MacBook Air, o ZenBook 3; três modelos do Zenfone 3 — Max, 3 (sem sobrenome) e Deluxe –; e dois modelos do ZenWatch, o 2 e o 3.

Desses lançamentos, ZenBook 3 e ZenWatch 3 são, segundo o diretor de Marketing para América Latina e Índia, Marcel Campos, produtos para posicionar a marca, ou seja, dos quais não se espera um grande volume de vendas. Já com os demais, a Asus deseja competir de igual para igual com grandes nomes como Motorola, Samsung e até Apple.

Hoje (às 21h) chegam apenas os dois “sabores” de Zenfone 3 — chip Qualcomm Snapdragon 625, câmera traseira de 16 MP e frontal de 8 MP — nas cores dourado, branco e preto safira:

  • Zenfone 3 (ZE520KL) com tela HD de 5,2 polegadas, 3 GB de RAM, 32 GB e bateria de 2600 mAh por R$ 1.499;
  • Zenfone 3 (ZE552KL) com tela Full HD de 5,5 polegadas e 4 GB de RAM, 64 GB e bateria de 3000 mAh por R$ 1.799;

Na primeira quinzena de novembro, chegarão ao mercado um dos três sabores de Zenfone 3 Max, com bateria de 4100 mAh, nas cores cinza escuro, dourado e prata, e dois modelos do relógio inteligente da Asus, o ZenWatch 2 e o ZenWatch 3:

  • Zenfone 3 Max (ZC520TL) com tela HD de 5,2 polegadas, 2 GB de RAM e 16 GB, traseira de 13 MP, frontal de 5 MP e processador MediaTek MT6737M por R$ 999;
  • ZenWatch 2, (WI502Q) de 2015, com display quadrado de 1,45 polegadas e moldura de aço inoxidável por R$ 999;
  • ZenWacth 3 (WI503Q), de 2016, com display redondo de 1,39 polegadas e corpo todo de aço inoxidável por R$ 1.799;

Ainda em novembro, chegarão ao Brasil o ZenBook 3, notebook que roda Windows 10, pesa 910 gramas e tem 11,9 mm de espessura, e duas versões do Zenfone 3 Deluxe — 6 GB de RAM, tela Full HD de 5,7 polegadas, câmera traseira de 23 MP, frontal de 8 MP, bateria de 3000 mAh — nas cores prata, cinza e dourado:

  • ZenBook 3 (UX390UA) com tela Full HD de 12,5 polegadas, Intel Core i7, 16 GB de RAM e 512 GB de armazenamento SSD por R$ 14.999;
  • Zenfone 3 Deluxe (ZS570KL) com processador Qualcomm 820 e 64 GB por R$ 3.599;
  • Zenfone 3 Deluxe (ZS570KL) com processador Qualcomm 821 e 256 GB por R$ 4.399.

Em dezembro, chegará a outra versão do Zenfone 3 Max, com tela Full HD de 5,5 polegadas, processador Qualcomm 430, 32 GB de espaço, a tal da bateria de 4.100 mAh e câmeras iguais a do Zenfone 3 (16 MP e 8 MP) em duas opções de RAM:

  • Zenfone 3 Max (ZC553KL) de 2 GB por R$ 1.199;
  • Zenfone 3 Max (ZC553KL) de 3 GB por R$ 1.299.*Preços à vista.

Ative esta opção do iOS 10 para limitar publicidade direcionada

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24/10/16, 11h00 2 min 2 comentários

É importante entender como as empresas que fabricam nossos dispositivos operam porque o modelo de negócio impacta diretamente nos recursos oferecidos ou não.

Não é uma boa, por exemplo, esperar por recursos que reforcem a privacidade e limitem a publicidade direcionada no Android. O Google vive de publicidade, portanto lhe é vital a veiculação de anúncios mais segmentados e caros. (Recentemente, aliás, o Google associou os dados anônimos da DoubleClick aos das contas Google, identificando efetivamente as pessoas para fins comerciais/direcionamento de publicidade.)

A Apple, não, e isso se reflete em seus sistemas. O iOS é, talvez, o sistema mais progressista no sentido de blindar o usuário contra publicidade direcionada.

Além dos bloqueadores de anúncios liberados no iOS 9 (uso e indico o 1Blocker), o iOS 10 trouxe uma mudança importante na limitação de publicidade rastreada. Trata-se de uma opção para que desenvolvedores e redes de anúncios não consigam te isolar e, assim, enviar anúncios baseados em comportamento.

Para ativar essa opção, entre em Ajustes, depois Privacidade, role a página e toque em Publicidade e, na tela seguinte, ative o item “Limitar Publicidade Rastreada”.

Até a versão anterior do iOS, ativá-la fazia com que o sistema emitisse um “alerta” a apps que pedissem esse número identificador (conhecido por IDFA ou IFA), mais ou menos como o Do Not Track dos navegadores web. No iOS 10, a Apple refinou o comportamento da opção. Em vez do “alerta”, o sistema passou a enviar um IDFA padrão (00000000-0000-0000-0000-000000000000), impedindo formas indiretas de explorar esse identificador.

Como combater a epidemia de informações falsas ou imprecisas no Facebook?

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21/10/16, 13h49 3 min 4 comentários

Em grupos de WhatsApp é relativamente comum alguém publicar uma notícia falsa ou imprecisa seguida do “na dúvida, achei melhor compartilhar”. É preciso mudar esse padrão, invertê-lo. Na dúvida, não compartilhar.

Não temos ainda, coletivamente, noção da força da informação. Uma mentira contada mil vezes não se torna apenas verdade, ela gera consequências. Tem tanto poder que pode matar uma inocente e levar um lunático à presidência de um país.

Piora, ainda, quando a mentira é espalhada deliberadamente. Qual a forma mais rápida de crescer uma página de política/notícias no Facebook? Segundo uma pesquisa do BuzzFeed, é “abstendo-se de relatar fatos e, em vez disso, jogar com os preconceitos partidários usando informações falsas ou imprecisas que simplesmente digam às pessoas o que elas querem ouvir.” Não é algo exclusivo de lá; aqui no Brasil, também, vários grupos, da esquerda e da direita, utilizam desse subterfúgio para pregar.

Quem faz essas coisas? Um punhado de gente que não está mais preocupada com as consequências dessas publicações do que com o as vantagens da desinformação. Vai além do financeiro. Há interesses políticos por trás disso também.

E não é só na política. A desinformação é um mal que permeia todas as esferas da vida pública. Em muito, um potencializado pelo Facebook, o jornal cada vez mais popular das pessoas nos anos 2010. Ao se eximir de responsabilidades, seja como empresa de mídia ou qualquer outra classificação, a rede abre espaço e estimula esse padrão de reforço de preconceitos e acirramento dos ânimos baseado em mentiras.

No Twitter, Christopher Mims, colunista do Wall Street Journal, escreveu:

Certa vez escrevi uma coluna dizendo que o Facebook provavelmente não nos leva a mais partidarismo. Hoje acho que aquilo está completamente errado.

Agora acho que o Facebook está contribuindo para o declínio da civilização ocidental. Ajudando a espalhar desinformação.

Substituímos a sociedade civil com a auto-seleção e o auto-reforço de ciclos de afinidade alimentando nossos cérebros com a validação social de inverdades perigosas.

Nossos pensamentos são inerentemente um produto do nosso contexto. O filtro invisível do Facebook é real e as tentativas da empresa em negá-lo são pífias.

Como mudar esse cenário? A Dificuldade começa antes disso: sempre me pergunto como apresentar o problema sem soar arrogante ou pedante? (Este texto, inclusive, pode ser lido assim.) Difícil…