Foto de divulgação do Nokia 6.

O retorno da nova Nokia

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11/1/17, 8h56 5 min

A HMD, empresa formada por ex-funcionários da Nokia, revelou recentemente o primeiro smartphone com a marca finlandesa que será lançado após a venda da divisão de dispositivos móveis à Microsoft. O Nokia 6, um intermediário sem muitos atrativos óbvios, será exclusivo para o mercado chinês. Ainda assim, muita gente comemorou por aqui. Há motivos?

O Nokia 6 parece um produto competente. Tem especificações medíocres, do português “de qualidade média, comum”. Ele virá com 4 GB de RAM, 64 GB de memória interna, tela Full HD de 5,5 polegadas, câmeras com muitos megapixels e, estranhamente, um Snapdragon 430, um chip que seria mais um “médio baixo” do que um intermediário propriamente.

Por outro lado, o acabamento é de metal e a construção do tipo “unibody”, o que denota certo capricho. Já argumentamos aqui que smartphone premium não é mais necessariamente o que tem as especificações mais avançadas; o Nokia 6 segue essa cartilha. O preço sugerido, cerca de US$ 245, fecha o pacote e condiz com o que está sendo oferecido.

Encontramos conforto na familiaridade, então é compreensível que a notícia de um smartphone que estará disponível apenas na China repercuta aqui — muitos temos, afinal, boas lembranças dos tijolos da Nokia nos tempos pré-iPhone. A promessa da HMD quando criada, de ser uma empresa global, reforça o entusiasmo. Correndo tudo bem, existe a real possibilidade de vermos os míticos smartphones da Nokia rodando Android à venda no mercado brasileiro.

Mas é o bastante para justificar o furor? Ou suficiente para que a Nokia volte à boa forma dos tempos prósperos? Até que ponto uma marca sustenta a promessa e o desempenho de um produto?

Fosse a HMD formada pelos mesmos ex-executivos da Nokia, com a mesma expertise, mas se a marca “Nokia” assegurada, se o Nokia 6 se chamasse, sei lá… HMD 6, a reação, obviamente, seria outra. Porém, fora a marca “Nokia” estampada ali na frente do aparelho, a situação é exatamente essa.

O mundo hoje é muito diferente do de dez anos atrás. A HMD não tem a logística nem os recursos da velha Nokia e, o mais crítico, nenhum diferencial óbvio ou imediato. O grande dilema de quem resolve se aventurar na venda de um smartphone não é exatamente criá-lo, mas sim justificar a preferência pelo seu em detrimento de um iPhone, Galaxy S ou, para ficar nos intermediários, um Moto G da vida. No momento, a única garantia da HMD é a marca “Nokia”.

E isso pode ser o que basta, aliás. A marca é um diferencial válido. Fazendo tudo corretamente, ela pode ser o fio condutor para que o negócio floresça. É muito mais fácil partir de uma base, qualquer que seja, do que do zero. Se essa base tiver um legado positivo, facilita muito aquele trabalho de convencimento, o argumento de venda. E não é maluquice, mesmo tanto tempo depois do auge da Nokia, acreditar que esse nome por si só ainda consiga converter vendas. Maluquice seria pensar que não.

Além da qualidade indiscutível de boa parte do seu portifólio, a Nokia exercia também um fascínio por outros motivos. Uma empresa finlandesa, com expertise própria, ideias malucas e sem medo de experimentar, de iterar e, nesse processo constante, às vezes acertar grande em dispositivos memoráveis. A HMD parte dessa base incrível, mas apoiado no Android em um mercado saturado de smartphones praticamente indistinguíveis, é difícil imaginar que ela repita o sucesso da velha Nokia. De qualquer forma, boa sorte!

Outras notas

Pen drive de 2 TB

A Emily publicou um tweet despretensioso durante a CES sobre um pen drive da Kingston de 2 TB e se assustou com a repercussão. Não foi uma caso isolado. Em alguns sites de tecnologia, a notícia ficou entre as mais lidas por dias semana. Fascinante que em 2017 as pessoas liguem tanto para pen drive — especialmente para um caro que pouca gente vai comprar.

Yahoo vira Altaba

As sobras do Yahoo que não entraram na venda à Verizon, basicamente a participação na chinesa Alibaba e o Yahoo Japão, terão uma nova denominação: Altaba. Escolher um nome tão ruim talvez tenha sido o último grande esforço de Marissa Mayer como CEO — ela deixará o cargo e o quadro de conselheiros da empresa após finalizada a venda à operadora norte-americana.

As senhas do Planalto

Há uma preocupação grande e justificada sobre o perfil de Donald Trump no Twitter. Afinal, uma invasão mal intencionada poderia ser desastrosa. Por aqui, o uso das redes sociais pelo nosso Presidente em exercício é mais prosaico. Por vezes, acidentalmente desastroso, mas ele passa longe de ser tão eloquente quanto o novo Presidente norte-americano. O que não justifica, de qualquer forma, tornar públicas as senhas das redes sociais do Governo Federal, como fez o Portal Brasil pelo Twitter. Pior: num arquivo sem qualquer proteção salvo no Google Docs.

  • Satya

    Excelente texto, típico artigo que só encontramos aqui no Manual do usuário. Tenho uma dúvida, os executivos da antiga Nokia deram alguma contribuição/sugestão? Ou apenas deram a marca para a HMD fazer o que bem entender?

    • Mais que isso, eles são a HMD. A Nokia cedeu o uso da marca à HMD, que foi criada por ex-executivos da Nokia para, em parceria com a Foxconn, produzir features phones (adquiridos da Microsoft) e smartphones com a marca Nokia.

      • Satya

        Então, para mim, isso já é mais que suficiente para escolher este aparelho.

    • Rodolfo Gutman

      Satya cadê o Surface phone? Aumentaram o seu salário vc poderia contribuir para o Manual do Usuário né. 😃

  • Como hoje, todos os aparelhos são parecidos, a única coisa que tem que fazer para se destacar com qualidade é atualização rápida e frequente, como fez a finada Motorola durante um tempo.

    • Mateus Azevedo

      Espero muito que sigam por esse caminho.

    • Num mercado “mais do mesmo”, o software pode fazer grande diferença ao obter clientes.

      • Eu concordo com vocês, mas ainda continuará sendo Android. Diferencial de software quem tem é a Apple e a Jolla; usar Android, ainda que com variações de skins e outros acréscimos, não muda o fato de ser Android.

        Será legal se a Nokia investir no Android sem muita invencionice, mas pouco provável. O vídeo de divulgação já mostra fileiras de ícones modificados e o comunicado à imprensa fala em um app de câmera exclusivo. E é meio difícil fugir disso. Software é muito mais fácil de mexer (tornar diferente da concorrência) do que hardware.

        • Sou do Windows, mas estou para admitir derrota.
          Grande parte dos fã-boys e haters da Microsoft vieram da Nokia.

          • Rodolfo Gutman

            Ainda há esperança 😀não desiste.

        • Rodolfo Gutman

          Qual era o nome do sistema do Nokia? Era Meagoo?

          • Tinha o Symbian, que precede a era dos smartphones modernos (não-touch) e foi (mal) adaptado para smartphones touch, e, em paralelo, o Maemo, que acabou virando MeeGo depois da fusão com o Moblin, da Intel.

            Um monte de smartphones com Symbian chegaram ao mercado, mas eram ruins. Os menos ruins eram os sem interface sensível a toques, como N95 e N82. A Nokia chegou a lançar alguns tablets desengonçados com o Maemo e apenas um smartphone com MeeGo, o Nokia N9, que era bem legal, mas sofria pela falta de suporte dos desenvolvedores — leia-se falta de apps.

          • Rodolfo Gutman

            Meu Deus eu só gosto de sistemas que não tem apps!

  • Mateus Azevedo

    HMD, por favor, só te peço uma coisa: use o Android mais puro possível, sem muita frescura, assim como a Motorola fez nos tempos do Google. Isso é o suficiente para que o aparelho se torne a indicação número 1 para a maioria das pessoas. Isso, claro, se esse modelo for lançado no resto do mundo também, o que eu espero.

    • Eu sempre volto a esse argumento, mas vamos lá: a gente de tecnologia valoriza atualização e Android puro, mas comercialmente nunca vi essa premissa se justificar. Os Nexus sempre foram irrelevantes e a Motorola também não avançou muito nas mãos do Google em termos de vendas.

      Claro que eu gostaria de um comprometimento com Android, mas acho que o pessoal sobrevaloriza muito a opinião geek no mercado de smartphones em relação ao volume de vendas.

      • Mateus Azevedo

        Eu acredito que as indicações foram um dos principais motivos da Motorola ter deslanchado o Moto G por aqui em 2013. Mas pode ser apenas impressão e possivelmente não reflete o resto do mundo, já que aqui no Brasil o mercado com maior volume sempre foi o intermediário, e na época não tínhamos nada decente.
        Também acho que o Google nunca tentou vender os Nexus como algo popular, ficando sempre no nicho geek.

        No fim, o que vende mesmo é marketing, o que Apple e Samsung fazem muito bem e a HMD provavelmente não teria cacife pra bater de frente nesse aspecto. Por isso ainda acho que as nossas indicações possam fazer alguma diferença inicialmente, principalmente aqui no Brasil.

        • Android puro no Moto G foi só um dos fatores, e nem acho que era um dos mais fortes. Quando ele foi lançado, os concorrentes naquela faixa de preço eram muito piores. O que a Motorola fez foi entregar mais (hardware, principalmente) cobrando menos.

      • “e a Motorola também não avançou muito nas mãos do Google em termos de vendas.”
        Que isso, mas foi a (o?) Google que reviveu a Motorola, a qual estava beeem mal das pernas e sem confiança do mercado (após smarts desastrosos). Em um mercado dominado por Galaxy’s Y de 500 reais, como Ghedin disse, lançar um hardware decente (1gb de ram em 2013) com preço acessível foi o que solidificou a marca.
        Na mesma época a Nokia tinha os Lumia 520, bons também e com preço decente, que pelo mesmo motivo quase foram pra frente, mas “não tinha Snapchat” (sofria da falta de apps).

        Quanto à versão de Android, de fato ninguém liga, se dá pra instalar os apps mais famosos (como na era do Pokemon Go, onde só android 4.4 pra frente podia), então o celular é válido. O publico em geral não tá nem aí pra versão, desde que funcione.

        • O Moto G era muito melhor que os concorrentes da época e isso não era apenas por causa do Android puro. O Moto X, que era o flaghsip deles, não vingou mesmo mantendo o Android puro e tals.

          A Motorola não se recuperou com o Google, só teve sucesso com o Moto G no Brasil, que em termos de retornos financeiros é muita pouca coisa já que é um produto de entrada.

  • Maicon Bruisma

    “Tem especificações medíocres, do português ‘de qualidade media, comum”. Não entendi esse trecho, as especificações são boas, um chipset melhor que o snap 617, bastante ram, mesmo tipo de jogada que a Asus fez com o Zenfone 2, boa construção, o porém é o preço que esta acima do esperado, ainda mais se tratando da China, que com 200 doletas se consegue ate um snap 820, no mínimo um 625. Outro detalhe, correção na verdade, é que eles vão vender para outros países, não será exclusivo da China.

    • o próprio site oficial diz que será exclusivo da china no lançamento: http://www.hmdglobal.com/press/2017-01-08-nokia-6/

    • O seu questionamento não anula o que eu escrevi. Ele é mediano. Ainda que o Snapdragon 430 entregue um desempenho legal, ele está no nível de outros intermediários — ou “super médios” — como Moto G e Zenfone 3. Medíocre tem uma conotação pejorativa, mas tratei de ressaltar ali a raiz da palavra: algo mediano, de qualidade média.

  • Tem uma coisa que não me agradou. Quando falamos em Nokia a primeira coisa que pensamos é na resistência do aparelho, não? 🤔
    Não vi essa qualidade sendo apresentada. Ok, não me lembro de ver a Nokia usando isso para vender, mas hoje nesse mundo de “só Android” um aparelho resistente, belo e barato aproveitaria a força da marca.
    Ou essa idéia de Nokia indestrutível e apenas brasileira?

    • Caio

      Acho que hoje em dia é meio complicado fazer um aparelho bem resistente e que ainda seja bonito. Alumínio e vidro são bem mais frágeis se comparados aquele plástico duro “indestrutível” que a Nokia usava nos celulares mais antigos. Não creio que seria viável comercialmente utilizar materiais mais resistentes, porém mais “feios”.

      • Exato, mas isso só indica que realmente na situação que se apresenta o mercado a Nokia não tem nada demais para oferecer.
        O que se tem é apenas o nome, uma marca que há muito vive da lembrança de uma época que ela não pode trazer de volta.
        Será que a Nokia sobrevive?

        • Caio

          Não acho que eles vão revolucionar alguma coisa, pelo menos não agora. O maior bem dela é a própria marca, de ela conseguir explorar isso creio que consiga pelo menos se manter relevante no mercado, torço muito por isso.

        • Saulo Benigno

          Mas espera aí, naquela época era comum todos os aparelhos serem resistentes. Isso por volta do ano 2000. Existiam poucos concorrentes e Nokia domina o mercado.

          O mercado mudou e a Nokia foi junto. Tanto que o N97 , N98 já não eram tão resistentes assim. E esses telefones já eram de 2008.

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  • É só uma amostra, “sempre” se soube que serão vários aparelhos.
    A HMD já confirmou que dia 28 irá revelar vários aparelhos.
    Agora quero ver se serão apenas bons e mais baratos como a OnePlus faz ou se terá alguns diferenciais.

  • Conrado Perdigão

    Achei um ótimo celular, mas para o mercado errado. Na china, com as inúmeras marcas um celular com hardware mediano/baixo e corpo metálico tem várias opções… mas imagina o Nokia 6 vindo para o Brasil? O hardware dele é ok para quem usa pouco, a câmera temos que esperar para ver, a bateira esta boa, se aqui ele viesse na casa de no máximo 1.000 reais, aqui ele tem diferencial pelo seu design. Um celular de mil reais com corpo metálico, que parece ser bem feito, não é o que temos aqui. O moto g veio na época que hardware pecava, o Nokia 6 poderá vim na época em que o hardware já foi concertado e agora o povo quer é beleza. Infelizmente nessa faixa de preço todos os celulares no Brasil estão feio, o quantum era o mais bonito, mas a nova versão dele dá dó de ver…
    Agora sobre o software, vi uma alteração parecendo ser mínima nos videos lançados hoje. Foi um video curte, mas deu para ver que parece ter mudado só os ícones e ter tirado a gaveta de apps, pois os ícones da barra de cima, a forma dos botões e como é a central de apps é igual ao Android puro. Podendo ser até mesmo só uma launcher para o marcado chinês… vamos ver!

  • Caio

    Sinceramente, prefiro um aparelho intermediário com acabamento impecável a um de plástico fuleiro e processador mais parrudo. Para o meu uso, não vejo necessidade em investir muito mais dinheiro em um celular que entregue ótimo acabamento e ótimo hardware.