O reducionismo do Lulu, o app de reviews de homens

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22/11/13, 20h15 5 min 20 comentários

O Lulu chegou ao Brasil com uma ótima localização e marketing agressivo para atrair mulheres interessadas em ajudar amigos a ganhar moral com possíveis pretendentes ou fazer aquele desabafo anônimo de caras que não foram legais com elas.

Em uma definição simples, o Lulu é um app de reviews de homens. Em um contexto maior, mais um que mistura bits com sentimentos.

A primeira das várias polêmicas recai na objetificação dos homens, no sentir na pele o que as mulheres vivem no dia a dia desde que o mundo é mundo. Polêmica que cai por terra pelo clima descontraído que norteia o Lulu e porque… bem, talvez até existam, mas é meio rara a figura do homem-objeto, seja em um app, seja andando por aí. Bater nessa tecla é reforçar a ideia insana de preconceito contra héteros, por exemplo.

Poderia desenvolver melhor o raciocínio, mas já o fizeram em 140 caracteres:

Aos incomodados, existe a opção de pedir a remoção do perfil no app. Ele não é “opt-in”, ou seja, não cabe aos homens se cadastrarem lá e esperarem as opiniões; atrelado ao Facebook, todo mundo começa automaticamente dentro da brincadeira. Um ponto perigoso e com enorme potencial de acabar em briga na justiça.

Antes de chegar a esse extremo, porém, o Lulu é capaz de estragar um encontro, ou magoar algum marmanjo?

Difícil. O ambiente é controlado e abusa do bom humor. As hashtags são pré-definidas e mesmo as negativas foram redigidas de forma descontraída. Os homens podem apelar contra o que as mulheres disserem dele incluindo eles próprios as hashtags que acharem adequadas.

De qualquer forma, nada exclui as notas e as hashtags mais cruéis delas e, nessa, imagino que deva ser preciso uma autoestima elevada para quem ficar com nota vermelha ou for bombardeado com #FriendZone e #Cascão. O suficiente para amaldiçoar o destino amoroso de um homem para sempre? Pouco provável.

A minha grande crítica ao Lulu é outra, é em relação ao reducionismo da proposta, algo que paira sobre mídias sociais e sobre a Internet de modo geral.

Viramos números, arrobas, resultados de algoritmos que processam informações por si só reduzidas, distorcidas. Vai do mais escancarado, o Klout, até os anúncios que Facebook e Google direcionam baseados no que fazemos online. Estamos nos adequando aos computadores ante a incapacidade deles de, no momento, se adequarem a nós. Como David Auerbach conclui em seu belíssimo ensaio na n+1, “a estupidez deles [computadores] se transformará na nossa”.

Esmiuçando o problema de transformarmos personalidades em dados binários, na hora de avaliar aspectos da natureza humana o leque de alternativas extrapola em muito duas alternativas, o “sim ou não”. Não raro, a razão dá lugar à emoção e detalhes circunstanciais e/ou temporários ganham pesos desproporcionais em relação ao todo.

Um casal sem uma boa química não significa que ambos ou um deles seja uma pessoa a ser evitada. A pessoa “X” que no relacionamento com “Y” era distante, pode ser só amores com a “Z”. Posso ter conhecido alguém e ficado com ela uma noite; qual a base que essa mulher teria para me avaliar?

Se somos tampas procurando a panela compatível, limitar as opções baseados em um app é reduzir uma questão complexa a uma solução capenga, falha.

Pareço exagerado, mas é esse o tom de Alexandra Chong, co-fundadora do Lulu, na matéria do New York Times.

“Quando você pesquisa um cara no Google, não quer saber para quem ele votou ou qual foi o tema de conclusão de curso dele. Você quer saber se as sogras gostam dele. O cara tem bons modos? Ele é atencioso?

(…)

Você não tem controle se o cara é ótimo ou um babaca e no fim da experiência, mesmo que ninguém leia você sente que deu o troco no cara. Você recuperou parte do controle.”

Um discurso que parece descompassado com a realidade do Lulu que, como já dito, tem um ar bem leve. Talvez fosse legal os criadores do app se posicionarem mais firmemente em relação a isso.

Como os caras ficam no Lulu.
Arte: Brenton Powell/Tumblr.

Não vejo com maus olhos o auxílio da tecnologia na hora de flertar. Sendo um introspectivo e a princípio desinteressado, pelo contrário; acho essa tendência bacana. O grande dilema aqui é o contexto, ou a falta dele.

Homens falam de mulheres, imagino que mulheres também falem de homens. A diferença entre essa prática antiga e o que Lulu proporciona é que nesse último o alcance das críticas é bem maior e livre do contexto que a convivência com os parceiros de fofoca oferece. Na forma como se apresenta, o Lulu é um julgamento tácito, uma condenação sumária sem a mínima possibilidade de defesa.

Talvez o Lulu fique só como “o assunto do Twitter no dia 22 de novembro de 2013”, talvez cole e vire a certidão de cara legal do século XXI. Mas a exemplo da Vivian, depois de ver os dois lados do app, no celular de uma amiga e no meu próprio, acredito que seja só uma farra, uma brincadeira sem maiores consequências. Na verdade torço para que seja o caso. Seria muito chato ser dispensado de antemão porque ganhei a hashtag #MaisBaratoQueUmPãoNaChata. O que não é o caso. Acho.

  • O reducionismo anda mais evidente devido ao crescimento da computação e IA, mas é algo muito que sempre foi muito comum. Eu chamo de “maldição da métrica”. Quando se faz a quantificação de algo, as pessoas trabalham para melhorar suas métricas e não o que ela procura representar (seguidores, likes, pontos no Klout…) e isso acaba com a sua utilidade. Existe uma teoria que a partir do momento que um indicador econômico passa a ser medido, ele para de ter validade pois está sujeito a manipulações externas.

    Sobre o aplicativo em si, ele reduz até que de forma bem inteligente…mas é agressivo para o nosso orgulho sermos quantificados assim. Mais ainda como homens, desacostumados a essa situação. É o troco que elas deram nós. :(

    • “Existe uma teoria que a partir do momento que um indicador econômico passa a ser medido, ele para de ter validade pois está sujeito a manipulações externas.”

      Sensacional!

  • Marcell

    Geralmente concordo contigo Ghedin, mas acho que dessa vez tenho que discordar. Achei a ideia bem legal, inclusive melhor e menos intrusa que o Tinder. Sinceramente? Queria ter idealizado o Lulu. Inveja das criadoras!

    • Como pode ser menos intrusa que o Tinder? Começa pelo fato de que o Lulu é compulsório, ou seja, se uma amiga tua entrou e você não desativou o compartilhamento de informações com apps (configuração obscura que pouca gente conhece), está lá.

      O modo de funcionamento também é bem mais agressivo que o do Tinder. O Lulu é público, o Tinder é absolutamente privado. Não há desnivelamento entre gêneros no Tinder, já no Lulu os homens ficam em evidência à mercê das mulheres. E há espaço para vinganças e difamação, algo bem complicado de se visualizar no outro app.

  • JP Malaquias

    Acho bobeira este movimento contra o app. Tá, não é a coisa mais politicamente correta do universo, mas quando cê tá numa roda de amigos/amigas e passa um homem/mulher muito atrente, ser ético não é a primeira coisa que passa na cabeça. As pessoas avaliam e o fazem sim de forma rasa, porque não é algo importante, é só uma brincadeira entre amigos, não considero isso algum crime contra a moral e bons costumes. E, cá entre nós, não acho que um ser da raça humana em plenas capacidades mentais iria escolher seu par para relações íntimas exclusivamente através de um app…

    • A diferença é que esses comentários em rodas de amigos tem um alcance bem limitado e não deixam resquícios — a menos que alguém grave a conversa ou a filme. No Lulu, o desempenho dos homens fica lá, acessível a todas as outras amigas. Sem falar no lance de puxar todo mundo do Facebook sem aviso algum, o que parece ser um grande problema estrutural do app.

  • JP Malaquias

    Off-topic: Não tem como logar em serviço algum pra comentar?

    • Não… Não quero acrescentar camadas de complexidade, para mim, para o sistema e para os leitores, aqui. Quanto mais fácil comentar, melhor :-)

  • gerson

    Acho que o app pode ser muito bom na hora de quebrar o gelo, mas tudo vão depender do jeito que as brasileiras vão usar. Se for na zoeira, tranquilo. De qualquer forma, não acho que isso vá muito longe.

    Para evitar possíveis desentendimentos com a minha namorada, quis sair do app, aí que está o problema: eu não autorizei nada, e meu nome, minha foto, alguns dados estão lá. E pra sair, tive que logar (cedendo acesso aos meus dados do facebook para o app). Complicado.

    • Bruno

      Então Gerson, ontem a minha noiva veio comentar comigo sobre o app e me questionar por que eu não apareci entre os contatos dela no Facebook. Pois então, há muito tempo eu já havia desativado no Facebook quaisquer convites de apps, em App Settings, para evitar (mais) coleta de informações pessoais (como o e-mail) para os third party apss ou mesmo websites. Talvez nem fosse preciso ter cedido teus dados privados para o app, desde que a possibilidade de coleta de tais informações fosse desativada no próprio Facebook. Dê uma olhada nisso. Acho que nem convites para participar de jogos e outros apps no Facebook eu recebo. Abraço.

      • Gerson

        nooossa! Muito obrigado, Bruno!

        Valeu pela valiosa dica, de quanta perda de tempo tu me livrou, hein!!

        No meu Galaxy trend (single core, 700mb de RAM) – vou comprar um moto G – eu uso um cliente de facebook mais leve, o Spatio, pode ser que fazendo isso que me falaste esse app pare de funcionar. De qualquer forma, vou seguir tua dica agora mesmo, tudo por um pouco menos de invasão de privacidade e spams….

        valeu mesmo, cara!
        Grande abraço!

        • Bruno

          Capaz, sem problema. O importante é ajudar. Grande abraço.

    • No Brasil, SEMPRE vai ser ‘na zoeira’. Afinal, ela não tem limites.

  • Rogério Calsavara

    Não conheço o app, mas acho que ficará mais como uma brincadeira mesmo.
    Mesmo assim, reconheço que desperta questões relevantes a respeito da privacidade do indivíduo, dado que o sujeito aparece no app mesmo sem ter feito qualquer tipo de cadastro.

    Infelizmente, o enfraquecimento da privacidade parece ser cada vez mais certo nos dias atuais, em muito devido à nossa própria culpa, já que muitas vezes abrimos mão da nossa privacidade em troca de comodidade ou para facilitar a interação nas redes sociais.

    • Sim, noto isso também. Há alguns anos a ideia de ter um GPS ativo o tempo todo no teu bolso, ou de liberar para um site seu número de telefone, contatos e outras informações, eram escandalosas. Hoje, são lugar comum.

      Mas é uma troca conveniente — facilita um bocado o acesso a apps e serviços para os usuários, e permite que as empresas integrem melhor suas ofertas e explorem essas informações comercialmente.

  • jorge

    É possível que um homem que não tenha facebook seja “julgado” no app? Ou só ficam expostos aqueles que tem perfil no Facebook?

    • Não. Ele cria o banco de homens a partir dos contatos no Facebook que a mulher que acessa o app tem. Se você não está no Facebook, é impossível aparecer no Lulu.

  • Pingback: O problema não é o Lulu()

  • Ricardo

    Se estiver com meu perfil do Facebook temporariamente desativado também posso ser “avaliado” pelo Lulu?

  • Janaino

    O próprio video já resume o quanto inútil e débil é este app.