Monges usando smartphones em Chicago. Cena de Lo and Behold.

Uma conversa sobre Eis os Delírios do Mundo Conectado, documentário de Werner Herzog

Por e
22/12/16, 9h43 24 min Comente

Nota do editor: Em Eis os Delírios do Mundo Conectado (Lo and Behold: Reveries of the Connected World no original), Werner Herzog coloca o seu estilo e olhar apurado a serviço de um grande debate sobre a Internet — da concepção e fundamentos da rede ao que ela pode vir a ser num futuro distante. Eu e Fabio Montarroios conferimos o documentário e, depois, sentamo-nos juntos para debatê-lo. É um formato diferente, mas que nos pareceu adequado para abordar o assunto. Não sei se isso é possível em documentários, mas “contém spoilers” (?).


Rodrigo Ghedin: Oi Fabio! Eu me lembro que Eis os Delírios do Mundo Conectado entrou no meu radar, salvo engano, por indicação sua. Não conheço muito da obra do Herzog, mas já tinha visto e gostado muito daquele documentário dele sobre as cavernas de Chauvet (A Caverna dos Sonhos Esquecidos) e, pelo que pesquisei das outras obras, abordar a Internet parece um território meio… inusitado. Pareceu isso a você também?

Fabio Montarroios: E aí, Ghedin? Então, acho que foi assim, mas confesso já não ter certeza se eu indiquei ou se foi você quem me indicou. Mas, de um modo ou de outro, acho que esse documentário acabaria chegando a nós.

Diferentemente de Into the Inferno (2016), que é uma produção da Netflix, também do Herzog, Eis os Delírios do Mundo Conectado (2016) foi parar no novo (para gente aqui do Brasil) serviço de streaming da Amazon. O que é muito bom, devo dizer, porque documentários são uma boa forma (às vezes a única a depender do tema que abordam) de você se aproximar de certos assuntos e eles não são assim tão populares quanto os filmes de ação ou mesmo outros gêneros pelos quais o próprio Herzog já se aventurou.

Não vi toda a filmografia dele, que é vastíssima, tenho até lacunas graves como o célebre Fitzcarraldo (1982), que é de ficção, mas vi alguns muito bons. O mais exótico foi o Fata Morgana (1971). Pra ver esse documentário surreal fugi do trabalho no meio do expediente, em 2006, por conta de uma projeção na sala gigante do Cinesesc aqui de São Paulo. Era imperdível e uma época com menos opções na própria internet pra ver os filmes como os dele.

Caraca, falei tanto e não respondi sua pergunta! Acho que esse filme, de um certo modo, bem particular do Herzog, é uma continuação do A Caverna dos Sonhos Esquecidos. Se a humanidade começa a representar ali o que imagina, sonha e vislumbra, sem sabermos ao certo as razões para isso, acho que culminarmos, pelo olhar do Herzog, na Internet faz muito sentido. Ainda mais quando chegar a realidade virtual, talvez passemos a viver numa caverna de sonhos esquecidos cotidianamente.

Pôster do filme Lo and Behold.RG: Nossa, e eu só vi dois dele… A primeira coisa que me chamou a atenção em Eis os Delírios do Mundo Conectado foi justamente o fato de ser do Herzog. Mesmo sem conhecer direito a sua filmografia, interessou-me muito conhecer a concepção que ele teria da Internet — ele, no caso, alguém que não tem nada a ver com o meio, mas que tem uma visão de mundo bastante peculiar e sensível. Achei quase palpável o tom dado à narrativa. Meio poética, fascinada de um jeito respeitoso, crítico e ao mesmo tempo sem ser piegas. Enfim, falei demais aqui! Eu queria saber com que sensação que você ficou ao terminar de ver o documentário.

FM: Confesso que esse me pareceu um dos documentários mais fracos dele que eu já vi… Como disse, não vi todos, mas confrontando esse com os outros, a coisa ficou muito a de um diletante falando com figurões da Internet, sabe? Ele é um categórico cara alheio aos recursos que valorizamos e até faz troça disso no estilo tio mal-humorado engraçado, daí discutir a importância de um iPhone com ele provavelmente não renderia muito. Mas faz muito sentido na narrativa dele.

(A propósito, teria sido ótimo se ele tivesse tido a chance de entrevistar Steve Jobs.)

Eu veria o Eis os Delírios do Mundo Conectado como um preâmbulo de algo maior que ele enseja construir em algum momento. Ele mesmo demonstrou interesse em continuar a conversa, porque o assunto é vasto. O fato de ser ele e não outro a falar sobre isso é algo importante, afinal ele tem um olhar muito especial (poético e um tanto místico), mas ainda assim não vi força nesse documentário. Nada dito ali me deu uma chacoalhada, saca? As falas mais interessantes me pareceram vir da astrônoma Lucianne Walkowicz e do cosmologista Lawrence Krauss, dois fora do circuito da tecnologia.

Agora, o que me intrigou mesmo foi o silêncio de Elon Musk antes de responder uma pergunta. Pra mim acabou sendo o ponto mais forte do filme: o silêncio do cara.

RG: Sim! Nessa parte Musk é perguntado sobre o que sonha. Faz-se o silêncio e ele diz que só se lembra dos pesadelos. Pesadíssimo…

FM: Não é!? O cara, um dos fodões da indústria tecnológica, diz se lembrar, com uma voz calma e suave, apenas dos pesadelos! E é o mesmo cara que está pensando num plano B pra humanidade: Marte.

RG: A resposta da Lucianne sobre a ideia de Marte como backup para a Terra é sensacional!

FM: Vi umas entrevistas do Herzog, sobre o filme, e ele diz que o montou de forma muito prática e tal (é o método dele), mesmo porque ele não filma muito, então tem poucas horas de gravação no total, mas com certeza ele intercalou de propósito essa fala da Lucianne Walkowicz para dar uma desbaratada no Elon Musk. E aí, a meu ver, entra novamente a “descrença” dele no mundo tecnológico: ele prefere ouvir a astrônoma (a mulher que faz elo direto com a sabedoria grega) do que o cara que sonha com o futuro só imaginado na ficção científica… O Herzog é um mestre justamente por isso: mesmo num documentário relativamente fraco ele vai pontuando o que acha importante e te levando pela mão às ideias dele sem parecer muito.

Elon Musk em cena de Lo and Behold.
Elon Musk.

RG: Sim, é bem clara (e muito bem sacada) essa intenção na montagem. Falta-me parâmetro para contrapor Eis os Delírios do Mundo Conectado aos outros documentários dele, mas ainda assim gostei bastante do resultado. Acho que em duas ou três vezes senti um quê de tiozinho impressionado com a tecnologia, porém algo tão pouco que se dilui perto das outras discussões.

Um problema, e aí sim acho que concordamos, é que as temáticas são muitas e, nessa, acabam ficando superficiais. São dez “capítulos”, cada um focando em uma etapa evolutiva da Internet, e em vários deles eu fiquei com vontade de ver mais. Talvez o que mais tenha deixado essa sensação foi o terceiro, sobre a família enlutada pela morte da filha e a exposição a fotos dela sem vida…

FM: Pois é… Ele dividiu em dez (dez mandamentos?) e creio que por uma questão prática também. Mas mesmo esse da família, sendo problemático, arranca uma frase de efeito da esposa quando ela diz que a Internet é uma criação do anticristo ou algo assim. Me parece bem pouco razoável essa afirmação e nesse capítulo só os pais falam, as filhas não, e certamente elas são privadas de usar a Internet e isso deve estar fazendo um “estrago” nelas.

Desconhecia essa história e pelo visto ela repercutiu bastante. Fiz uma pesquisa do nome da família no buscador e já os primeiros resultados por imagem aparece a filha morta deles. É realmente uma forma de convivência difícil, mas ante outras coisas como os shows de morte de um ISIS, a divulgação de imagens de mortos acidentados me parece algo menor quando não é feito pra aterrorizar e perseguir as famílias.

Herzog comentou que é por feeling que ele escolhe os entrevistados e acredito que tinha muitas opções, então, novamente, é o olhar dele nos conduzindo. Ele tem grande interesse em imagens, em representações, daí parece fazer sentido ele questionar a fluidez das imagens na Internet e especialmente esse aspecto negativo de você se deparar a qualquer momento com a foto de um ente querido seu morto enquanto busca qualquer coisa.

Tem um documentário dele, O Homem Urso (2005), que trata da morte de um homem que acreditava ser aceito pelos ursos — o cara e namorada acabaram comidos pelos ursos numa dessas temporadas em que ele passava com os animais! Ele consegue o áudio do ataque dos ursos, porque o homem-urso gravava toda essa interação, e no documentário aparece o Herzog ouvindo o áudio e dizendo que aquilo jamais deveria ser ouvido por ninguém de tão terrível. Ele tem uma moral que condena a exibição da morte e isso se refletiu, eu acho, na escolha dessa família dentre tantas desgraças possíveis de acontecer graças a… Internet.

Família enlutada que aparece em Lo and Behold.
Família Catsouras.

RG: É desse tipo de desdobramento (o que pensam as filhas, como ficou a relação deles com Internet após o evento etc.) que senti falta. Aliás, já que estamos nesse assunto, Herzog parece cauteloso sobre os potenciais destrutivos da Internet em vários momentos. Ele fala sobre o vício em jogos, o risco da Internet acabar via erupções solares e nossa civilização entrar em colapso, a guerra cibernética que já pode estar acontecendo.. Você acha que houve um exagero no tom dado a essas abordagens ou a preocupação procede?

FM: Ele é um homem vivido, então acho que não é qualquer coisa que o abala e ele buscar esse tom catástrofe faz sentido. Eu vejo ele colocando essas coisas numa esteira quase religiosa, sabe? Ele começa o documentário dizendo que a sala em que a Internet “nasceu” ser um lugar sagrado e que o corredor que leva até ela como um lugar repulsivo… Fica toda hora esse flerte com uma dimensão bíblica e ele ver a Internet como uma espécie de catalizador do juízo final parece fazer sentido dentro dessa narrativa especificamente. Ele é bem racional, mas não me parece conseguir fugir desse lado místico de encarar as coisas. Talvez ele nem queira fugir.

É uma opinião bem pessoal minha, mas se você pegar, sim, o Sol pode fazer um estrago na Terra, assim como uma guerra cibernética pode nos levar ao caos completo sem nem percebermos… Eu compartilho dessas ressalvas dele, mas sem a mesma motivação. Várias coisas podem levar nossa civilização à ruína completa, mas veja que muitas pessoas já vivem em áreas que consideraríamos impossíveis de viver: elas não têm saneamento básico, comida, energia elétrica, Internet, saúde etc. Elas já vivem em meio ao caos e continuam vivendo. Essa catástrofe ao qual ele remete me parece fazer mais sentido em tipo de mundo que pode ruir, mas um mundo idealizado por ele.

O próprio modem, em que o Leonard Kleinrock dá um tapão, me lembra uma imagem religiosa, como a imagem de um santo nas igrejas. E como já versamos antes, a tecnologia não parece uma religião cheia de devotos? Essa leitura dele cai como uma luva, portanto.

RG: Nas minhas anotações tem mais de uma marcação sobre esse aspecto religioso que permeia todo o documentário. Num panorama mais pragmático, é como se a maioria ali tivesse uma fé quase cega na tecnologia.

Dessas passagens, uma das mais tocantes é a do Ted Nelson. A reflexão que ela me causou foge da tecnologia… fiquei dias pensando em alguém que acredita, há mais de 50 anos, num modelo suplantado por outro que “venceu”. Quando Herzog diz que Nelson é o único são, deve ter sido um momento de redenção e emocionante para ele.

FM: Sim, a Igreja tachou muita gente de louca ou de possuída. Daí aparece o Herzog com sua reputação e diz que o cara é o único são ali, ficou com cara de papo de louco no fim das contas.

Está certo que são pessoas de outro país e que compartilham de outra cultura, mas de um modo geral, as figuras escolhidas por ele, tirando alguns, parecem representantes religiosos um tanto ilibados e cheios de convicções. Sebastian Thrun é um deles. Quando Herzog diz que jamais será superado por uma máquina e que as máquinas não são capazes de amar como nós somos, Sebastian Thrun parece estar sendo confrontado com uma tentação e precisa repeli-la pra se manter puro.

Esses caras me deixam mais preocupados que os cenários catastróficos, porque eles veem as coisas (pessoas perdendo seus empregos, por exemplo) com muita naturalidade e como se não houvesse mais opções. Esse embate sutil do Herzog como um representante dos velhos tempos (da velha religião por assim dizer) é interessante e é algo que passa em segundo plano no documentário.

RG: O rapaz do MIT que diz amar seu robô jogador de futebol foi, de um jeito diferente, tão perturbador quanto Thrun.

Falando em amor, senti falta de mais discussões sobre a relação homem-máquina. Ela aparece pontualmente em alguns momentos e meio que fecha o documentário, mas havia muito potencial ali que acabou inexplorado.

Sobre a parte de Green Banks, por exemplo, onde se refugiam pessoas sensíveis às ondas eletromagnéticas, chamou a atenção que, apesar de todo o sofrimento dos que ali vivem, o documentário aponta que há um senso maior de comunidade — o funcionário do telescópio, que não tem essa hipersensibilidade, logo parece mais isento para falar algo nesse sentido, é quem faz a observação. De certa forma, a Internet parece sacrificar a vida comunitária, ser (talvez; falta-me mais embasamento para cravar essa referência) um reforço poderoso à ideia de atomização do mundo da vida de Deleuze. Você ficou com essa impressão também?

FM: É verdade, foi o Joydeep Biswas quem disse isso e falou que em 2050 os robôs como os dele poderiam superar um tipo de pessoas num torneio da FIFA, mas essa fala já sinalizava o que o Lawrence Krauss colocava no ar: que um dia pode ser que a companhia de humanos não seja algo essencial e que as máquinas nos sejam suficientes. Pode ser mesmo e pensando em alguém que procurar ouvir as estrelas que já nem brilham mais, no ofício de cosmologista, deve ser essa a mensagem que um dia alguém pode captar naquelas antenas do NRAO. Vai saber.

Sobre Green Banks, a vida daquelas pessoas ali na área sem sinais deve ser muito curiosa. Acabou me remetendo a um personagem caricato de um seriado recente, o irmão de Saul em Better Call Saul, que sofre muito com a interferência eletromagnética e que todos veem como maluco. Não creio nisso (como o Herzog), me parece ter fundamento psicológico essa reação, mas com certeza há algo a se explorar ali porque na entrevista as pessoas desabam emocionalmente!

E o Herzog foi malandro aí também, porque é justamente nessa comunidade em que ele encerra o documentário: pessoas cantando em volta da fogueira e se divertindo, sem nenhum aparato tecnológico, porque ali não é permitido. Ele mostra o fogo, uma das razões de ser do nosso estado atual, e se alguém merece homenagem ali é o fogo e o poder comunitário e não os grandes homens brancos que inventaram a suprema Internet. Aliás, eles ficam parecendo os nerds amedrontados em outra imagem caricatural. O vídeo em que Sebastian Thrun aparece vibrando por seu carro autônomo ter ganho uma competição só é capaz graças ao brinquedo tecnológico que ele ajudou a criar. Sem essa intermediação, ele poderia ser só um cara assustado e tímido. Não à toa ele funda uma escola pra ter… seguidores. Há muitas mensagens nesse documentário a serem exploradas e, claro, muita margem para interpretações diversas.

Numa entrevista do Herzog sobre o documentário, ele diz não entender muito bem esse lance de aplicativos de relacionamento. Ele parece estar por fora de muita coisa que é importante hoje, porque o que ele valoriza realmente é de outra época e que perde força: a leitura (ele dá muito ênfase nisso) e o relacionamento tête-à-tête.

Foto de Herzog.
Werner Herzog.

RG: Não dá para culpá-lo — não tenho nem metade da idade dele e várias coisas que vejo me deixam perplexo. (E, com isso, corro o risco de ser visto como o velhinho que grita com nuvens!)

Rumando para o final da nossa conversa, uma discussão que se desenvolve pouco antes do término do documentário diz respeito à consciência da Internet, à capacidade dela pensar em si mesma.

Se você pergunta isso a um especialista em inteligência artificial, para alguém extremamente racional, a resposta será aquela a que estamos habituados — ainda falta muito, não temos a tecnologia etc. Mas, ali, as respostas variavam. Um dos entrevistados disse que a web é a própria Internet pensando. Estendendo esse raciocínio, os robôs que perambulam pelo ciberespaço às vezes intereferem em nossas vidas de maneiras inesperadas. A consciência é o último grau a que a tecnologia pode chegar, nesse sentido. Eis os Delírios do Mundo Conectado provocou você de alguma forma sobre esse tema?

FM: Passou longe de ser provocativo esse ponto aí — exceto se se considerar que inconscientemente, ao falar de sonhos, ele estivesse interessado nos sonhos dos entrevistados. Essa pergunta na qual o Herzog se escorou me pareceu não fazer muito sentido já que ele usou essa sacada do contexto da guerra como a guerra sonhando com ela mesma. Não creio que a guerra sonhando com ela mesma culminasse em ataques por drones. Mas pode ser uma leitura limitada minha do alcance filosófico (se há algum) dessa questão.

De todo modo, esses sonhos são nossos, humaníssimos, porque nós queremos essas coisas no nosso âmago desde o momento que desejamos e conseguimos voar. Daí, depois do fim dessa limitação territorial brutal, de você conseguir atravessar em horas distâncias continentais, mudou tudo e mudou os nossos sonhos. Essa bola o Nicholas Carr (que não é um dos entrevistados, infelizmente) já cantou quando diz que os mapas (a cartografia) mudaram nossa maneira de pensar e, com certeza, nossa maneira de sonhar.

A Internet nos faz sonhar mais com outras possibilidades: a telepatia, por exemplo, que os pesquisadores Marcel Just e Tom Mitchellos cogitam no documentário. Até mesmo o Leonard Kleinrock sonha com algo simples como uma Internet que fica invisível como é a eletricidade hoje (que ainda é mais importante que a Internet para manter a nossa forma de vida como ela é hoje).

Uma das falas do Lawrence Krauss me pareceu injusta, ele diz que a ficção científica não previu a Internet, mas Neuromancer deitou e rolou em muitas formas de conceber a Internet bem antes dela ganhar os contornos que ganhou e tanto é que seu romance ainda pode ser colocado no futuro e não no presente.

RG: É… pensando melhor (e à luz do seu comentário), parece haver ainda um descompasso entre a Internet e o que sonhamos. O sonho de Kleinrock parece algo mais tangível no estado atual, com todas as promessas de Internet das Coisas. Mas nada é de graça e, nessas promessas, há um grande potencial para que os resultados saiam meio tortos, sendo otimista. E tem esse lapso na fala do Krauss.

Retomando um ponto que você já abordou, a última fala do documentário. Nela, o próprio Krauss diz que no futuro talvez a companhia de outros seres humanos será dispensável, e que ele não tem como dizer se isso será bom ou ruim. Eu fiquei um pouco entristecido com essa possibilidade. Longe de julgar (provavelmente nem estarei aqui para ver), mas com base nos obstáculos para fugir de outros seres humanos que já criamos com a tecnologia rudimentar que temos atualmente, abdicar completamente desse contato com os outros e do senso de comunidade que advém dele soa traumático demais para nós enquanto espécie…

FM: Acabei me apegando um tanto às falas do Lawrence Krauss. Em certo ponto ele diz: “A Internet está fora de controle” e isso tem relação direta com a Internet das Coisas que você menciona. Outro entrevistado pelo Herzog, o especialista em segurança Sam Curry, chama de “Internet of me” e estamos mesmo rumando pra algo assim, ultra personalizado. Com certeza não vai ser de graça e um pouco disso já podemos sentir quando assistimos a Black Mirror (o Além da Imaginação da nossa época) e ficamos bem ressabiados com o que está logo ali na esquina, por mais que algumas coisas apresentadas ainda estejam bem longe de se tornarem reais.

Mas não vejo como ruim esse lance de humanos interagindo menos uns com os outros. Vai ser uma outra forma de viver e não creio que seja válida para toda a humanidade. Um traço milenar das várias civilizações que habitaram o planeta é justamente um descompasso entre as pessoas. Nem todos viveram de forma igualitária e mesmo em civilizações mais isoladas como as indígenas, ainda havia distribuições de tarefas e distribuição de benefícios de modo distinto. Me parece bem natural que nem todo mundo usufrua da companhia de robôs e que pode ser um privilégio na verdade, assim como é um privilégio você conviver com uma pessoa plenamente erudita nos dias de hoje.

RG: Mas você não vê isso como um contentamento muito raso? Tipo aquele holograma que inventaram no Japão para caras solteiros. É um exemplo extremo, mas as grandes mudanças paradigmáticas começam por ali mesmo, pelas pontas. E também não estou certo se abdicar dessa humanidade, desse contato, não terá efeitos colaterais devastadores — Black Mirror e o episódio das baratas talvez soe como um conto cautelar.

FM: Obviamente existirão inteligências artificiais distintas (fãs mais bobinhas até as mais sofisticadas), já que a humanidade não dá sinais de que vai repensar o capitalismo e sua voracidade por recursos, daí inteligências artificiais distintas provavelmente estarão disponíveis por preços igualmente distintos. Não creio, portanto, que todos nós nos beneficiaremos das IAs no sentido de ser uma companhia a ponto de substituir um humano. E por falar em economia, Herzog disse numa entrevista sobre o documentário que gostaria de ter falado sobre bitcoins. Enfim, ele mesmo sacou que ficou muita coisa de fora.

Já o episódios das baratas no Black Mirror que você menciona, me pareceu uma grande alegoria e não propriamente um efeito da tecnologia que seria fundamental pra nos orientar ideologicamente. Os filtros ideológicos estão aí e não são necessários aparatos para vermos o Outro como um ser desprezível (tão desprezível quanto uma barata). Ao invés de nós nos metafoseramos como baratas, como quis Kafka em seu conto, os outros assim se o fizeram a partir desses filtros que aplicamos a eles. Transferir os problemas ao Outro vem de longe, diga-se. Se isso for implantado, tecnologicamente, é só um subterfúgio de um governo autoritário para fazer o que eles fazem hoje pela banal persuasão retórica. A Coreia do Norte consegue isso à moda antiga.

RG: Sim, mas refiro-me ao efeito. Ali há um peso enorme da ideologia governamental, mas o distanciamento também tem parte no processo (e já vemos isso hoje, no cotidiano, com diferentes gradações e em outros contextos). O contato com outros seres humanos é algo que nos lembra da nossa própria humanidade.

FM: Cara, quando uma máquina atingir um nível de sinceridade e dizer ao seu dono algo como “eu te amo”, acho que todas as barreiras vão ceder. Se você pensar na dinâmica dos jogos eletrônicos de hoje (e de ontem), ficamos todos nós em busca de recompensas que eles nos dão, não? Já nutrimos sentimentos pelas e através das máquinas. Se isso ganhar a dimensão de um holograma que te recepciona quando você chega em casa como seria uma companheira humana, eu vejo como uma adaptação.

Nos lembra uma certa época da nossa humanidade, porque essa humanidade ao qual nos referimos é um processo longuíssimo. Nem sempre nos sentamos em torno do fogo pra tocar banjo…

RG: Ah, certamente. Mas em toda essa evolução, ou em boa parte dela, o senso comunitário esteve presente. Somos seres sociais. Eu imagino, talvez equivocadamente, que remover isso nos põe em risco de virarmos outra coisa, não mais humanos.

FM: Já ficamos em torno do fogo pra ver pessoas queimarem, por exemplo. E queimamos astrônomos como esses aos quais levamos ao status de seres aos quais damos ouvidos e razão (a SpaceX é fruto disso). Eis a nossa humanidade!

Somos sociais tanto pra tocar banjo quanto pra queimar pessoas, porque ambos podem ser feitos também em companhia de outros. Mas se as máquinas mimetizarem perfeitamente nossas emoções, não me parece algo muito distinto de quando um psicanalista, que sonda a mente de uma pessoa sem recursos tecnológicos, fazendo entrevistas parecidas com as do Herzog até, diz que está ocorrendo uma transferência do seu paciente: o analista passa a ser objeto de desejo do analisado. As máquinas vão sofrer essa “transferência” da nossa parte quando direcionarmos nossos desejos a elas. Isso já acontece, não com máquinas numa relação complexa, mas em outros contextos.

RG: Talvez já em máquinas também. Jeff Bezos disse que 250 mil pessoas pediram a Alexa, a inteligência artificial do Amazon Echo, em casamento…

FM: Olha só que dado interessante! Pode ter sido piada de 249999 pessoas, mas pode ter tido ali um único ser humano que verdadeiramente quis o impossível de se casar com a Alexa. E pode ser que seja mesmo uma tendência um troço desses. É uma possibilidade dentre várias se ainda restar um planeta para habitarmos. Eu não ficaria preocupado com isso. Pelo menos não agora.

Leonard Kleinrock ao lado do modem mostrado em Lo and Behold.
Leonard Kleinrock e o primeiro modem.

RG: Acho que esse tema rende toda uma discussão à parte, sobre a qual voltaremos no futuro!

Para fecharmos, Fabio, recomenda Eis os Delírios do Mundo Conectado apesar dos pesares?

FM: Claro! Recomendo muito, porque o documentário permite várias interpretações e leituras diferentes. Tudo que o Herzog faz merece atenção, porque o cara é realmente atípico no meio cinematográfico. Ele conseguiu, entre outros feitos, fazer o Nicolas Cage interpretar o melhor papel da vida dele em Vício Frenético. Um feito sobre-humano, diga-se!

RG: Hahaha! Bom, eu reforço a recomendação. Gostei bastante e, ao mesmo tempo, é um documentário que te coloca um monte de pulgas atrás da orelha e serve de combustível para bons papos.


Eis os Delírios do Mundo Conectado está disponível na Netflix, o Amazon Prime e na iTunes Store americana.