Mapa global de conexões a partir do Facebook.

Guia Prático #110: A carta de Mark Zuckerberg

Por
18/2/17, 16h07 1 min 16 comentários

No programa de hoje, eu (Rodrigo Ghedin), Emily Canto Nunes e Fabio Montarroios debatemos a enorme carta publicada essa semana por Mark Zuckerberg. Nela, o CEO do Facebook fala bastante em “infraestrutura social”, os desafios da humanidade e o objetivo de formar uma comunidade global. O Facebook, segundo Zuckerberg, tem um papel de destaque nesse contexto — e, embora isso possa se revelar verdadeiro, é, também, bastante perigoso.

Se preferir, baixe o MP3 e ouça depois. E se você ainda não assinou o programa no seu player de podcasts favorito, faça isso via iTunes ou pelo RSS.

Links citados

  • Eu acho que um incômodo inescapável dessa situação é o tamanho do Facebook, boa parte do mundo passa boa parte do tempo interagindo e se informando por ela. Hoje, nem se fala mais de alguém desbancar a rede social, a curto prazo temos que aceitar o poder imenso que está nas mãos do Zuckerberg. Nesse cenário, não consigo imaginar nenhuma postura que me deixe confortável, talvez ele tornar a plataforma open-source, mas mesmo assim seria complicado já que os dados continuariam em posse da empresa.

    Por outro lado, esse manifesto não é o pior dos cenários ao meu ver, a postura pré Brexit e Trump era bem mais temerária: uma grande resistência em admitir o poder de influência da empresa e suas responsabilidades consequentes. Nem acredito que esse discurso fosse possível 1-2 anos atrás, o Facebook se propondo algum algoritmo que não se restringisse a aumentar engajamento em termos de rede social.

    Em relação a viabilidade prática de moderar o discurso com uso de tecnologia, não acho que alguém espere resolver o problema do discurso polarizado, mas acho que é muito ceticismo acreditar que uma mudança de proposta honesta na rede social não seria algo extremamente relevante. No cenário atual, talvez a medida mais relevante possível para a sociedade, já que as eleições norte-americanas mostrou que a mídia tradicional e outras instituições tem bem menos força do que acreditávamos, talvez a força do discurso esteja no Facebook (ou em lugar nenhum no final das contas).

    Vou voltar minha briga com o Fábio: será que não falta humanas olhar para exatas? Não acredito que ele esteja sendo tão ingênuo, ele até já pontuou que a solução “óbvia” de mostrar textos conflitantes é contra-producente. Inclusive, ele é psicólogo além de cientista da computação, não acho que ele seja do tipo que ignore outras áreas de conhecimento…inclusive pelo jeito que a rede se comporta.

    • Fabio Montarroios

      Impossível: as ciências humanas olham para as exatas e não entendem nada. É mais fácil o contrário…

      Brincadeira à parte, continuo achando um insulto à inteligências das pessoas tratar o assunto da forma como foi tratado. Dar-se conta, agora, das diferenças culturais e do impacto q elas têm na rede não cola… Pode ficar bonitinho como mea culpa, mas não cola pra quem tem um pingo de senso crítico.

      Se pelo menos parte do código for aberto há esperanças. Ou se o facebook se relacionar melhor com determinadas entidades que protegem os direitos humanos ou se eles derem ouvidos a organizações do tipo, uma rede social relevante pode ser construída. (Mas veja q há um forte movimento de forças reacionárias em, por exemplo, acabar com a ONU.)

      Por ora, e para adiante, parece uma espécie de jogada de marketing… Estava lendo o Ray Kurzweil, no “A era das máquinas espirituais’ e ele faz umas previsões do futuro interessantes para 2019 e 2029 (comente com o Ghedin um pouco depois). Nos dois cenários ele apresenta uma relação cada vez mais íntima das pessoas com as máquinas e sistemas. Chegaremos ao ponto, segundo ele, de termos que desenvolver leis para proteger as máquinas de tão ‘humanas’ q elas parecerão (e nossa impossibilidade de distingui-las de humanos vai pelo ralo). Faz sentido imaginar uma AI mediando relações no globo todo, mas em q nível e de q forma? Não sei se o facebook é a empresa q vai permitir um

      Levando em conta todas as barreiras que existem hj e q nem pela guerra são transpostas (as tentativas dos EUA de levar a democracia ao Oriente Médio, por exemplo fracassaram), poderão ser suplantadas por uma rede de social q almeja todos aqueles itens q ele listou? Difícil… ONG existem há muitos anos e não resolveram os grandes problemas: desigualdade, pobreza, falta de educação e saúde. O fato de pessoas poderem compartilhar informações sobre doenças, como é o caso q ele cita na carta, se dá depois de diagnóstico e tratamento médico especializado em algum lugar do mundo e não o contrário.

      Por isso, desde já, e desde ontem, falta atenção às questões q as ciências humanas levantam há décadas. Elas cabem nesses algoritmos com algum esforço e criatividade. Aliás, esse seria o grande pulo do gato e por mais que esquerdas torçam o nariz, não vejo por onde num futuro tecnológico e de escassez soluções de ordem mundial partam máquinas q estimam q nós não conseguimos estimar. E, claro, ainda dentro da perspectiva comercial já q muitos negócios são possíveis e isso independe do facebook já q várias civilizações fazem comércio há séculos… Se isso ainda se chamará capitalismo eu não sei. Provavelmente não pq é insustentável.

      Também se insinua q o facebook é capaz de suplantar as políticas nacionais. Como se não fosse possível às nações, q se sentirem ameaçadas de algum modo, bloquear as ambições do facebook. Apesar das liberdades q se vive numa democracia, existem limites e o facebook sabe disso. Seja por incompreensão ou por movimento desejo das sociedades, eles não pode tudo. Tenho certeza q eles sabem disso e q como o interesse prioritário é comercial, essas articulações políticas vão rolar como já acontecem, por lobby.

      A proposta dele é relevante pelo q a empresa significa hj, mas ignora a concorrência q pode desbancá-lo, as instabilidades políticas que assolam as democracias do mundo todo (a nossa está capenga), a desigualdade (da qual ele é uma figura icônica com seus bilhões embaixo do colchão) etc.

    • Fabio Montarroios

      Impossível: as ciências humanas olham para as exatas e não entendem nada. É mais fácil o contrário…

      Brincadeira à parte, continuo achando um insulto à inteligências das pessoas tratar o assunto da forma como foi tratado. Dar-se conta, agora, das diferenças culturais e do impacto q elas têm na rede não cola… Pode ficar bonitinho como mea culpa, mas não cola pra quem tem um pingo de senso crítico.

      Se pelo menos parte do código for aberto há esperanças. Ou se o facebook se relacionar melhor com determinadas entidades que protegem os direitos humanos ou se eles derem ouvidos a organizações do tipo, uma rede social relevante pode ser construída. (Mas veja q há um forte movimento de forças reacionárias em, por exemplo, acabar com a ONU.)

      Por ora, e para adiante, parece uma espécie de jogada de marketing… Estava lendo o Ray Kurzweil, no “A era das máquinas espirituais’ e ele faz umas previsões do futuro interessantes para 2019 e 2029 (comente com o Ghedin um pouco depois). Nos dois cenários ele apresenta uma relação cada vez mais íntima das pessoas com as máquinas e sistemas. Chegaremos ao ponto, segundo ele, de termos que desenvolver leis para proteger as máquinas de tão ‘humanas’ q elas parecerão (e nossa impossibilidade de distingui-las de humanos vai pelo ralo). Faz sentido imaginar uma AI mediando relações no globo todo, mas em q nível e de q forma? Não sei se o facebook é a empresa q vai permitir um

      Levando em conta todas as barreiras que existem hj e q nem pela guerra são transpostas (as tentativas dos EUA de levar a democracia ao Oriente Médio, por exemplo fracassaram), poderão ser suplantadas por uma rede de social q almeja todos aqueles itens q ele listou? Difícil… ONG existem há muitos anos e não resolveram os grandes problemas: desigualdade, pobreza, falta de educação e saúde. O fato de pessoas poderem compartilhar informações sobre doenças, como é o caso q ele cita na carta, se dá depois de diagnóstico e tratamento médico especializado em algum lugar do mundo e não o contrário.

      Por isso, desde já, e desde ontem, falta atenção às questões q as ciências humanas levantam há décadas. Elas cabem nesses algoritmos com algum esforço e criatividade. Aliás, esse seria o grande pulo do gato e por mais que esquerdas torçam o nariz, não vejo por onde num futuro tecnológico e de escassez soluções de ordem mundial partam máquinas q estimam q nós não conseguimos estimar. E, claro, ainda dentro da perspectiva comercial já q muitos negócios são possíveis e isso independe do facebook já q várias civilizações fazem comércio há séculos… Se isso ainda se chamará capitalismo eu não sei. Provavelmente não pq é insustentável.

      Também se insinua q o facebook é capaz de suplantar as políticas nacionais. Como se não fosse possível às nações, q se sentirem ameaçadas de algum modo, bloquear as ambições do facebook. Apesar das liberdades q se vive numa democracia, existem limites e o facebook sabe disso. Seja por incompreensão ou por movimento desejo das sociedades, eles não pode tudo. Tenho certeza q eles sabem disso e q como o interesse prioritário é comercial, essas articulações políticas vão rolar como já acontecem, por lobby.

      A proposta dele é relevante pelo q a empresa significa hj, mas ignora a concorrência q pode desbancá-lo, as instabilidades políticas que assolam as democracias do mundo todo (a nossa está capenga), a desigualdade (da qual ele é uma figura icônica com seus bilhões embaixo do colchão) etc.

      • Não acho absurdo ele simplesmente não ter lidado com a questão das diferenças culturais, enquanto a expansão da rede social não barrava nesses problemas não era foco da empresa. Fora que, desculpa, mas não é óbvio saber o impacto disse em um produto: saber que há diferenças é fácil, saber quais são e como adaptar o produto para isso é um problema muito maior.

        Em relação a megalomania, acho sim problemático o tom messiânico dele, mas até que ponto ele está errado? Como eu disse, o incômodo inegável é que ele tem controle de uma ferramenta de comunicação enorme, não sei mensurar o tamanho disso em comparação ao resto. Nunca existiu algo similar, não é questão de ser mais ou menos poderoso, é questão de ser desconhecido. Usando seu exemplo, você não acha que uma rede social tem mais poder de construir/destruir uma democracia que porta-aviões? Acho que pode sim, como foi a primavera árabe, mas pode ser inútil também.

        Eu até comentei no outro Post Livre, sempre estamos errando no impacto das tecnologias em nossa vida, tanto para baixo como para cima. As tecnologias moldam o mundo fortemente, a gente só não sabe quais e nem como, precisamos estar sempre repensando sobre tudo isso. Ano passado, o significado dessa carta seria completamente diferente, pós-Trump um dono de rede social politizado é outra história.

        É necessário acompanhar, questionar de perto as decisões, no final só importa o que eles decidem. Se o Facebook mudar o algoritmo para priorizar o ~debate~, seja lá o que o Facebook entende por isso, impactará milhões de pessoas e democracias. Não importa se há teses e artigos publicados sobre o assunto, o que está sendo aplicado é a decisão dos “engenheiros”.

        Em resumo, a gente precisa acompanhar a sociedade em “tempo real”, se são os algoritmos que estão moldando as relações entre as pessoas e o jornalismo, a área de humanas deve questionar como isso está sendo feito. Precisa de um debate, como há em Economia por exemplo. Enquanto isso não acontecer, ficar nessa cortina de fumaça que ronda o termo de IA, ficará uma situação cômoda para engenheiros fazerem o que bem entenderem.

      • Não acho absurdo ele simplesmente não ter lidado com a questão das diferenças culturais, enquanto a expansão da rede social não barrava nesses problemas não era foco da empresa. Fora que, desculpa, mas não é óbvio saber o impacto disse em um produto: saber que há diferenças é fácil, saber quais são e como adaptar o produto para isso é um problema muito maior.

        Em relação a megalomania, acho sim problemático o tom messiânico dele, mas até que ponto ele está errado? Como eu disse, o incômodo inegável é que ele tem controle de uma ferramenta de comunicação enorme, não sei mensurar o tamanho disso em comparação ao resto. Nunca existiu algo similar, não é questão de ser mais ou menos poderoso, é questão de ser desconhecido. Usando seu exemplo, você não acha que uma rede social tem mais poder de construir/destruir uma democracia que porta-aviões? Acho que pode sim, como foi a primavera árabe, mas pode ser inútil também.

        Eu até comentei no outro Post Livre, sempre estamos errando no impacto das tecnologias em nossa vida, tanto para baixo como para cima. As tecnologias moldam o mundo fortemente, a gente só não sabe quais e nem como, precisamos estar sempre repensando sobre tudo isso. Ano passado, o significado dessa carta seria completamente diferente, pós-Trump um dono de rede social politizado é outra história.

        É necessário acompanhar, questionar de perto as decisões, no final só importa o que eles decidem. Se o Facebook mudar o algoritmo para priorizar o ~debate~, seja lá o que o Facebook entende por isso, impactará milhões de pessoas e democracias. Não importa se há teses e artigos publicados sobre o assunto, o que está sendo aplicado é a decisão dos “engenheiros”.

        Em resumo, a gente precisa acompanhar a sociedade em “tempo real”, se são os algoritmos que estão moldando as relações entre as pessoas e o jornalismo, a área de humanas deve questionar como isso está sendo feito. Precisa de um debate, como há em Economia por exemplo. Enquanto isso não acontecer, ficar nessa cortina de fumaça que ronda o termo de IA, ficará uma situação cômoda para engenheiros fazerem o que bem entenderem.

        • Fabio Montarroios

          Gostava muito de assistir, qdo ainda tinha tv e qdo a NET não era tão gananciosa, ao canal da BBC. Eles tinham algo q eu achava excelente: repórteres locais ao redor do mundo como correspondentes: um indiano na Índia, um chinês na China etc. Ao invés de fazer como o jornalismo brasileiro (e americano) fazia, q consistia em mandar um brasileiro [huehuehue] cobrir as reportagens pelo mundo, daí, claro, aquele brasileiro não estava tão integrado assim na cultura local e a BBC conseguia entender os problemas melhor com seus correspondentes nativos. Tá certo q é mais fácil gente falando inglês do que português, mas o problema cultural é enfrentando por grandes empresas (principalmente as de comunicação, como é o caso do facebook) há séculos. Como lidar com isso, claro, não é fácil… mas não é, definitivamente, um problema novo e pra uma rede social, mesmo sendo as redes sociais algo possível apenas com o advento e a expansão da internet, não me parece algo imprevisível. Na verdade, enfrentar esse problema, provavelmente, envolvia custos e enqto isso não se tornasse um problema (como é hj), vc vai levando. Daí, agora, de repente, eles notaram q as coisas podem não funcionar bem. Ah…

          Eu preferiria, mil vezes, q a influência, inevitável, americana se desse pela redes sociais, levando seus valores ao mundo sem dar um tiro, mas o mundo não funciona assim, infelizmente. Depois das primaveras árabes vc notou as consequências violentas q se seguiram. No Egito a coisa não deu certo: desencadeou-se um golpe militar q coloca como força contrária à Irmandade Islâmica, ameaça inicial dos revoltosos e ansioso pelo modo ocidental de vida. Estava folheando, antes da conversa do podcast, o livro “Morte e vida da democracia”, do John Keane, e o trecho q ele brinca com a possibilidade de uma überdemocracia é bem interessante assim como a impossibilidade de uma ‘paz democrática’. Por mais q democracias, como diz ele, evitem guerras entre democracias, essa carta, a da guerra, não sai nunca do baralho. No dia q as empresas de internet tiverem mais poder de influência q a indústria bélicas, aí pode ser q tenhamos uma outra condição, mas não é o caso, pelo menos, das próximas décadas. Tanto q se vc notar, os avanços q celebramos ainda são financiados pelo orçamento das forças armadas num nível bem pouco transparente. O fato dos militares terem permitido às universidades usarem a internet (a Arpanet) foi benéfico em termos econômicos e mudou o mundo, mas ainda vou na do Bobbio q diz ser indissociável o motivo q gera a criação de uma tecnologia – no caso, a internet era uma arma de guerra. Tanto q o temor agora são as guerras cibernéticas… E o facebook faz parte dessa equação, seja como alvo ou como ‘terreno’ para essas guerras. Talvez já o seja.

          Não noto esse debate aberto na área de economia como vc diz… francamente. E isso pode se dar por total desconhecimento e ignorância. E, claro, a esquerda abandonou as questões econômicas e deu no q deu: muito estudo cultura e pouca compreensão econômica das coisas… Tb acho q os engenheiros têm carta branca pra seguir com seus esquemas (planos) e não seria diferente. O conhecimento científico é core das nossas sociedades. É com esse conhecimento q se faz dinheiro. Se faz dinheiro com outras coisas, claro, muito dinheiro, mas isso está em beira de acabar (por questões climáticas e de desastres ambientais) e só o conhecimento aplicado pode continuar gerando mais dinheiro. Qto isso valerá eu não sei, pq, como eu disse, acho q o capitalismo não sustentará esse tipo de ganho q será de outra natureza. Uma nova economia vai surgir e me dá calafrios imaginar o qual pode ser a nova moeda de troca (virar baterias como no ‘Matrix’, talvez).

          Como diz a Hannah Arendt, o poder não precisa de justificativa, pq ele emana das comunidades políticas; o q ele precisa é de legitimidade. E, se não estou enganado, o facebook não tem legitimidade nenhuma (apesar dele próprio ser confundido com a internet) e essa carta do Zuckerberg talvez seja uma tentativa de buscar essa legitimidade. O facebook tem grana e atrai talentos. Ok. Mas é só isso, por ora. Eles têm dados sobre as pessoas, mas eles não podem usar esses dados de qualquer jeito, do contrário, as pessoas vão interromper suas atualizações na rede. E nisso vc tá certíssimo: teríamos q acompanhar a coisa em tempo real, mas isso me parece impossível. Só é possível na ficção orwelliana com um big brother q sabe tudo sobre todos. Se ninguém disparar uma busca sobre vc, vc continua sendo anônimo, certo? Bom, imagino q não seja tão simples assim e muita coisa pode nos monitorar, mas teve uma entrevista do Bruno Cardoso na Agência Pública e ela fala a real de uma central de monitoramento com câmeras de vigilância e ele diz o quão pouco eficaz é essa estrutura. Claro, ela não usa uma AI e isso pode mudar as coisas, mas é o a temos, ou seja, nada demais.

          Desculpe fazer citação em comentário, mas vou apelar novamente a Hannah Arendt:

          “Há muitas razões pelas quais esse novo grupo não se transformou, ou ainda não, em uma elite de poder, mas, de fato, há muitos motivos pra acreditar, com Daniel Bell, que ‘não apenas os melhores talentos, mas também, finalmente, todo o complexo de prestígio social e de status social estará enraizado nas comunidades científicas e intelectuais’. (…) Para o melhor ou para o pior – e creio q tenhamos todas as razões para estar tanto temerosos quanto esperançosos -, a classe realmente nova e potencialmente revolucionária na sociedade consistirá em intelectuais, e seu poder potencial, ainda que até agora desapercebido, é muito grande, talvez grande demais para o bem da humanidade. Mas isso são especulações”.

          Especulações q se mostram praticamente palpáveis nos dias de hj. Não tenho dúvidas q esses movimentos serão vistos como ameaças. Aqui no Brasil talvez não, mas na Europa, se ainda estiver minimamente unida, não. E esse sentimento tb pode se manifestar nos EUA, afinal, eles, diferente da gente, passaram por uma revolução e sabem bem o q é ter q virar o jogo.

    • Mas Gabriel, o que as “humanas” fazem o tempo todo é olhar para as “exatas”, ainda que estas fiquem bem irritadas com isto. É só ver o famigerado Caso Sokal.

    • Mas Gabriel, o que as “humanas” fazem o tempo todo é olhar para as “exatas”, ainda que estas fiquem bem irritadas com isto. É só ver o famigerado Caso Sokal.

      • Mas isso foi o inverso ao meu ver, alguém de exatas tentando pregar uma “peça” em outra área.

        Explicando melhor, não é questão de questionar apenas, mas realmente aproveita-las e não deixar que essas coisas virem uma “black-box” para todo mundo. As novas ferramentas de computação e as já antigas de estatística são ferramentas que possibilitam enxergar além, trazer outro tipo de informação.

        Eu gostaria, por exemplo, de que houvessem mais linguistas/sociólogos perto da área de PLN para maior embasamento teórico, mais perspectivas de aplicações e também a questão das implicações de seu uso.

        Um exemplo real dessa mistura de áreas é o Pedro Burgos que, como jornalista, procura adicionar algumas informações quantitativas em seu trabalho usando essas ferramentas para enxergar, por exemplo, o viés da cobertura em relação a temas polêmicos.

        Em alguns casos, acho que simplesmente é um imperativo para área de humanas estar ciente do que está acontecendo. O Google liberou uma ferramenta para moderação de comentários agressivos (https://www.technologyreview.com/s/603735/its-easy-to-slip-toxic-language-past-alphabets-toxic-comment-detector/), isso estará sendo utilizado e moldando a comunicação das pessoas no ambiente online, é importante que pessoas com conhecimento em humanas tenham conhecimentos das virtudes e limitações dessas ferramentas.

        • “Explicando melhor, não é questão de questionar apenas, mas realmente aproveita-las e não deixar que essas coisas virem uma “black-box” para todo mundo.”

          Perfeito! De fato, falta mesmo essa ponte.

  • rodolphovictor

    Esse Google Sintomas, tudo bem que ajuda muita gente, mas eu acho que serve pra melhorar os anúncios dessas áreas. Não vamos achar que o google é bonzinho, prq na posição do Mark eles fariam até coisa pior.

  • rodolphovictor

    Esse Google Sintomas, tudo bem que ajuda muita gente, mas eu acho que serve pra melhorar os anúncios dessas áreas. Não vamos achar que o google é bonzinho, prq na posição do Mark eles fariam até coisa pior.

  • Leocadio A. de Melo

    a fala da Emily lembrou-me um mantra q aprendi em Administração e que concordo: “pensar globalmente, agir localmente”, popularizada p canadense Frank FEATHER, da Global Marketing.

    teve eco p estes trópicos na Rio-92 segundo algumas pesquisas q fiz procurando referência desta frase.

    entendo q é p aí… []s livr3s,

  • Leocadio A. de Melo

    a fala da Emily lembrou-me um mantra q aprendi em Administração e que concordo: “pensar globalmente, agir localmente”, popularizada p canadense Frank FEATHER, da Global Marketing.

    teve eco p estes trópicos na Rio-92 segundo algumas pesquisas q fiz procurando referência desta frase.

    entendo q é p aí… []s livr3s,

  • Só ouvi o programa agora, mas queria fazer alguns comentários:

    1. durante a grande depressão, um curioso movimento político (ou ao menos com pretensões contraditoriamente políticas, já que em essência tratava-se de uma pauta antipolítica) se desenvolveu nos EUA — sendo rapidamente eclipsado após o New Deal — chamado simplesmente de “movimento tecnocrático” (https://en.wikipedia.org/wiki/Technocracy_movement). O nome não poderia ser mais sincero: seus proponentes sugeriam que a esfera da política é inerentemente falha e passível de erro devido à irracionalidade própria da subjetividade humana. Eles defendiam uma estrutura social governada por critérios racionais, objetivos e científicos, pelos quais todas as decisões políticas seriam racionalmente arbitradas e deliberadas. Nesse contexto, não haveria espaço para disputas ideológicas: a ciência e a tecnologia indicariam o caminho correto para o desenvolvimento humano.

    Com o perdão do anacronismo e da licença poética, o que os apologistas da tecnocracia sugeriam naquele momento nada mais é do que aquilo que hoje chamamos vulgarmente de “algoritmo”: há supostamente um caminho certo, objetivo e lógico para a tomada de decisões racionais.

    Parece que a carta de zuckerberg está ressuscitando este espírito tecnocrático: não se trata nela do reconhecimento de diferenças culturais, mas da tentativa de reduzir essas diferenças ao melhor algoritmo possível — de capturar tais diferenças de um modo que o melhor algoritmo possível possa mediá-las, prevendo suas consequências. Zuckerberg não está na prática se revelando um multiculturalista, mas está tentando submeter a lógica de um multiculturalismo rasteiro e homogeneizante a seu próprio algoritmo. Não por acaso ele fala o tempo todo na busca de um equilíbrio e do combate à polarização.

    Uma curiosidade: no meu mestrado estudei aspectos do discurso ambientalista nos eua dos anos 60/70, entre outras coisas. Um mito que procurei problematizar é o daquele ambientalismo “anti-tecnológico” (baseado naqueles estereótipos hippies/naturebas/abraçadores de árvores): o que procurei expor foi, ao contrário, um discurso profundamente tecnocrático, baseado na preservação de uma natureza construída pela ciência moderna e em um ambiente que é a extensão (tecnológica e organicamente ligada à natureza) da presença humana no planeta (pensem na influência do determinismo tecnológico de um marshall mcluhan, por exemplo). E encontrei esse discurso tecnocrático mesmo em ecologistas radicais “de esquerda”, como em murray bookchin. Quero dizer: o discurso tecnocrático sempre foi bastante sedutor e continua bastante influente, pois parece que a racionalidade da ciência e da tecnologia gera um suposto desenvolvimento superior àquele da política (ou da realpolitik).

    2. não me parece contraditório que o facebook queira incentivar as pessoas a votarem — ao menos em uma leitura ideológica. Se entendermos o facebook como mais um aparato entre muitos outros atuando na manutenção do status quo, faz todo sentido que ele queira incentivar que o seu público participe do teatro da democracia representativa (sobretudo nos eua, onde os dois maiores partidos em muitos casos representam os mesmos interesses).

    3. finalmente, sobre a ideia de “cidadão corporativo”: a carta apenas repercute a ideia já antiga de que corporações são “pessoas” dotadas dos mesmos direitos que qualquer cidadão — e protegidas pelas mesmas garantias constitucionais e legais nos eua. Aquele documentário recente do Noam Chomsky fala bastante disso.

    • PS: sobre o combate ao terrorismo. Acredito que ninguém se oponha à repressão a movimentos como o ISIS por parte de uma empresa como o facebook.

      O problema, porém, é bem mais repleto de tons de cinza.

      Nos anos 60 será que o facebook proibiria, por exemplo, a presença dos Black Panthers em sua plataforma? Ou mesmo de Luther King, já que para muitos a desobediência civil dos negros nada mais era que uma forma “branda” de terrorismo contra os brancos — sobretudo numa época em que ainda existiam leis que permitiam a segregação.

      Será que hoje o facebook expulsaria um grupo como o MST de seu território? Afinal, para muitos o MST é considerado “terrorista” por ocupar propriedades privadas, ainda que seja (para mim e para muitos outros) o mais importante movimento social e político em atuação no país.

      Será que, em última instância, o movimento de ocupação das escolas públicas do ano passado não seria também objeto de repressão da empresa? Afinal, era um “bando de arruaceiros depredando patrimônio público querendo impor sua opinião.”

      O pior de tudo é que a lei antiterrorismo da dilma poderia até proteger o facebook caso ele quisesse fazer isto…