Outdoor do Chrome no Reino Unido.

Como a competição entre navegadores ajuda a manter a web aberta e livre

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20/10/15, 13h09 7 min 22 comentários

O recém-lançado Chrome 46 (!) veio com novidades, correções, tudo que lhe é de praxe, mas trouxe também uma remoção na versão para desktops (Windows, Mac e Linux): o “Ok Google” universal para invocar a pesquisa não existe mais. O Chrome 47 também virá com outro recurso a menos, a central de notificações. Por que isso está acontecendo?

A alegação do Google para remover esses dois recursos é de que pouca gente os usava, o que não é surpresa — falar com o notebook é ainda mais estranho do que com celulares, e, da mesma forma, a metáfora de notificações tem menos peso no computador, mais ainda com Windows 10 e OS X tendo-as nativas. Mas o curioso é que o Google, talvez pela primeira vez, agiu no sentido de simplificar o Chrome em vez de expandi-lo.

Aos que não se lembram, o Chrome nasceu carente de recursos e dotado de uma agilidade espantosa. Foi crescendo, crescendo e, hoje, muita gente reclama do seu peso. O crescimento não foi arbitrário, é o preço que o Google (ou, mais diretamente, o usuário) paga para ter a plataforma Chrome. Há muito ele deixou de ser apenas um navegador para cumprir a missão maior da empresa.

O bom de termos uma multiplicidade de navegadores é que a web sofre menos por interesses particulares. O Google tem motivo para transformar o Chrome num faz-tudo: a web é o seu habitat, é onde ele faz seu faturamento. Manter a web relevante e empurrá-la para frente, com inovações e capacidades muito além das que lhe são esperadas, faz sentido aos interesses do Google, mesmo quando isso não é tão interessante à própria web — vide a iniciativa AMP, que promete acelerar os sites de notícias com, entre outras coisas, uma linguagem de marcação própria derivada do HTML.

Além disso, o Chrome se desdobra em outras funções. Quando o Windows 8 ameaçou deixá-lo em segundo plano na plataforma da Microsoft, o Google o usou como um cavalo de Troia replicando o Chrome OS dentro do Windows. O Chrome OS é, também, um “plano B” ou uma rota alternativa ao Android. (Nesse sentido o Google costuma trabalhar simultaneamente com produtos que se tocam em alguns pontos; apostando nos dois lados, as perdas e surpresas são minimizadas.)

Esse tipo de interesse não é exclusivo do Google e varia no espaço-tempo. Entre o final dos anos 1990 e 2004, o Internet Explorer, tendo vencido a disputa com o Netscape, mantinha sua liderança com funções que não condiziam com os padrões estabelecidos pela W3C, o consórcio que regula e estabelece os padrões web. Ao fazer isso, indiretamente a Microsoft contribuía para tornar sites exclusivos do IE, gerando um círculo vicioso em torno do seu navegador. O usuário não sabia que a culpa de determinado site não abrir direito no Opera não era do Opera. A ele (e à Microsoft), isso não importava. Não à toa, foi uma fase terrível da web, quando ela passou anos estagnada.

A Apple também teve sua fase de explorar com interesse além dos beneficentes o poder da web. O primeiro iPhone não tinha apps nativos, ele era dependente de web apps. Foi por isso, para permitir a criação desses web apps por mais desenvolvedores, que o Safari chegou ao Windows. A estratégia não funcionou, mas o desenrolar dos eventos acabou sendo melhor ao iPhone — com apps nativos ele deslanchou e fez (ainda faz) história.

Não é por descaso ou birra de Tim Cook que o Safari para Windows foi esquecido. Ele apenas não faz mais sentido na missão maior da Apple.

Mesmo o Safari para OS X, que nos últimos meses tem sido alvo de críticas pesadas por não incorporar tecnologias avançadas capitaneadas pelo Google/Chrome, tem nessa postura um papel político. A Apple não extrai muita coisa da web e, pelo descaso com que trata suas propriedades dessa área, as mantêm mais por exigência do que por convicção. A web é, nos domínios da Apple, o que ela é conceitualmente: um ambiente com sites compostos por páginas HTML que conversam entre si. “Web como plataforma” está fora dos planos da Apple.

Na prática, esse jogo de interesses, ou queda de (vários) braços, acaba funcionando como um autocontrole da web. É, na analogia de John Gruber, como o Conselho de Segurança da ONU. Os membros permanentes têm o poder de veto sobre quaisquer novos recursos apresentados. Com isso eles moldam, talvez mais do que a própria W3C, o futuro da WWW:

Não existe um “Conselho de Segurança dos Padrões Web” oficial, mas o mercado de navegadores web criou um de fato. Apple (ou Google, Microsoft ou, ainda, Mozilla) não pode, sozinha, vetar uma nova API de se tornar um padrão oficial da W3C, mas se qualquer uma dessas empresas decidir não implementá-la, ela não poderá ser usada pelos desenvolvedores web. A verdadeira web não é aquela definida pela W3C como um padrão, mas sim a que é implementada de uma forma consistente no WebKit, Blink, Trident e Gecko. O segredo do maravilhoso sucesso da web é que ela é uma meta-plataforma (quase) universal; é que ela não é implementada numa grande plataforma, como, digamos… o iOS, que por definição não é universal.

Talvez o caso mais emblemático desse cenário tenha sido a inclusão, pela Mozilla, do suporte ao H.264 no Firefox através de um acordo com a Cisco. O H.264 é um formato de vídeo proprietário, portanto contrário aos princípios livres que norteiam esse navegador. A Mozilla “perdeu e admitiu a derrota”, como colocou na época Monty Montgomery, do time de vídeo do Firefox, mas foi por uma causa maior — suportar um padrão difundido de fato, um que os desenvolvedores usam e que estava fazendo falta aos usuários da Mozilla.

Outro caso notório foi o do plugin do Flash, que entrou numa espiral de desuso e repúdio público após a negativa da Apple em inclui-lo no Safari do iOS. Havia um misto de cegueira coletiva com esperança de que aquela coisa fosse melhorar. Nunca melhorou. Um a um, os demais navegadores foram deixando de suportar o Flash e, no fim, isso foi bom. Estamos melhores sem ele. Ainda que pela força bruta (e descomunal, no caso da Apple/iOS), a web se livrou de um parasita que não lhe fazia bem e, a partir dali, traçou um caminho mais promissor.

Ao longo desses 26 anos a web já passou por fases muito ruins e teve momentos em que havia a ameaça, real e justificada, de que sua natureza aberta e agnóstica fosse perdida. Mas é seguro dizer que esse tipo de ameaça, de ordem técnica, ficou no passado. O problema atual não está nos navegadores, mas no que as pessoas estão vendo neles e como as empresas de tecnologia têm se aproveitado das suas belas características para levantarem muros altos em seus domínios. Quando alguns desses passam a conter mais de um bilhão de pessoas e a publicar links externos de má vontade, o poder concedido a uns poucos sobre os rumos da web fica desnivelado. Mas isso é papo para outro post…

Revisão por Guilherme Teixeira.
Foto do topo: Clive Darra/Flickr.

  • Panino, o Manino

    Papo bom agora vamos ao que interessa, instalem o Vivaldi: http://vivaldi.net/

  • Panino, o Manino

    Papo bom agora vamos ao que interessa, instalem o Vivaldi: http://vivaldi.net/

    • Saulo Benigno

      Porque? Quais motivos?

      • Panino, o Manino

        Porque estou recomendando.
        Tenho alergia a Chromium/Blink, e mesmo assim o navegador está conseguindo me fazer relevar isso um pouco porque está ficando bom. Ele é o Opera Clássico renascido. Ainda em Alfa no entanto, o Beta está a caminho, por isso estou recomendando usarem para relatar bug e fazer sugestão.

        • Os devs dele trabalharam no Opera, né?

          • Panino, o Manino

            Os originais.

          • Panino, o Manino

            Os originais.

    • Tentei usa-lo ainda no início. Extremamente pesado, sem “obviedades”. Não curti muito. Prefiro o Opera Chrominium. É um Chrome, sem Google e sem ser purista :)

    • Torcendo para que o Vivaldi viva dias gloriosos. É bastante promissor.

    • ‎Michael

      Extensões do Chrome funcionam? navegar sem um adblock é poluído.

      • Parece que o Vivaldi tem um adblock embutido. A propósito, tenho notado que tem aparecido navegadores por aí com adblock embutido. :)

      • Panino, o Manino

        Deve funcionar com a maioria, só coisas muito dependentes das adições do Google no Chrorome que não devem funcionar. Só testando.

    • JoseRenan

      Caramba, lembrou o Opera de alguns anos atrás! Até escorreu uma lágrima aqui.. Ademais está leve e veloz. Bate o FF na máquina que estou usando.

  • Claudio Roberto Cussuol

    Excelente artigo.
    Era desesperador quando tinhamos que programar duas versões de sistemas web, uma para a Microsoft outra para os outros navegadores. E como naquela época o mercado do Internet Explorer era absurdamente dominante isso gerava um ciclo onde só se fazia aplicações web para IE.
    Felizmente isso está praticamente acabando.
    Em parte por mudança na postura da Microsoft, em parte por ela ter perdido o posto de navegador dominante (e provavelmente por uma coisa ter levado à outra).
    Melhor pra nós.

    • Andre Guilhon

      Era realmente um inferno isso!

  • Andre Guilhon

    A história do Chrome me lembrou a do Netscape. Começou com um navegador simples, rápido e excelente! Depois virou o Netscape Comunicator, e mesmo o Navigator ficou um chumbo!

  • ‎Michael

    Quais outros navegadores vcs recomendam? Eu usei o Epic Privacy Browser por um tempo. https://www.epicbrowser.com/

    • Eu quero muito que o Vivaldi fique à altura dos outros grandões.

      Uso o Chrome em casa e o Opera desktop do trabalho.

      • Panino, o Manino

        A minha esperança era o Firefox com a nova engine Servo, porém de que adianta com essa mudança de mentalidade atual da Mozilla? Não estão acrescentando nada na experiência de uso e ainda incomodando os Power Users.

  • O plugin do Flash acabou esquecido na lixeira…. (eu sei que não é o post livre, mas me lembrei desta animação e da burrocracia que é um computador :) Toda vez que falam “plugin do Flash” me lembra disto =D )

    https://www.youtube.com/watch?v=hQISng5LQiY

  • ochateador

    Eu só quero ver quando os navegadores vão começar a usar vídeos em h265 (que é 20~30% menor que h264), porque a bosta do vp8/9/10 nunca funciona direito no Firefox.

  • Raposão Jedi

    Nunca tive problemas no chrome, pra mim é o mais rápido e acho que tem opções suficientes pra galera parar de choro (não é o caso aqui que o pessoal é de boa) e ir pra outro navegador, eu tenho o chrome e firefox somente (não conto com o Safari porque nunca abro).
    Sobre o Ok Google no computador nunca usei, nem a central de notificações da apple (ainda procuro uma forma boa de usar aquilo) e no celular uso só para demonstrações, porque no uso real também eu acho muito bizarro ficar falando com o celular pedindo respostas no meio da rua, acho bem ridículo para falar a verdade haha
    Mas parece que a Microsoft não acha (Cortana no Windows) e eu não ficaria surpreso de no ano que vem a Siri desse as caras no OSX.

  • Raposão Jedi

    Nunca tive problemas no chrome, pra mim é o mais rápido e acho que tem opções suficientes pra galera parar de choro (não é o caso aqui que o pessoal é de boa) e ir pra outro navegador, eu tenho o chrome e firefox somente (não conto com o Safari porque nunca abro).
    Sobre o Ok Google no computador nunca usei, nem a central de notificações da apple (ainda procuro uma forma boa de usar aquilo) e no celular uso só para demonstrações, porque no uso real também eu acho muito bizarro ficar falando com o celular pedindo respostas no meio da rua, acho bem ridículo para falar a verdade haha
    Mas parece que a Microsoft não acha (Cortana no Windows) e eu não ficaria surpreso de no ano que vem a Siri desse as caras no OSX.