BBM para Android e iPhone: um intruso que chegou tarde demais

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22/10/13, 9h00 12 min 17 comentários

Antes da briga ferrenha que se desenrola hoje nos bolsos de praticamente todo mundo que tem um smartphone pela supremacia na troca de mensagens rápidas, havia um app que conseguiu fazer um nome, criar uma reputação: o BBM.

Restrito aos domínios do BlackBerry, ainda assim ele conseguiu se destacar pela confiabilidade com que recebia e entregava mensagens, e trazer convenções que só mais tarde outros, como WhatsApp, Facebook Messenger e WeChat, apresentariam e popularizariam nas plataformas concorrentes.

Os tempos são outros, a BlackBerry está mal das pernas, considerando ser vendida e, como um namorado que faz bobagem no relacionamento e se arrepende, pedindo mais uma chance aos fiéis clientes remanescentes. Um dos últimos artifícios para se manter viva no acirrado mercado móvel é a expansão do BBM, talvez o item de software mais valioso do seu portfólio, para Android e iPhone.

Lançamento tumultuado

Se tudo tivesse acontecido como o planejado, o BBM já estaria na App Store e Google Play desde o mês passado. O lançamento do app foi originalmente agendado, com direito a um estranhíssimo “BREAKING NEWS” no título (já removido) do blog corporativo da BlackBerry, para 21 e 22 de setembro, um sábado e domingo.

Nos dias marcados ele não apareceu e a explicação dada pela BlackBerry foi de que uma versão vazada do Android fora instalada por mais de um milhão de pessoas. Para piorar, era uma versão incompleta, com vários bugs que sobrecarregaram os servidores do BBM. Lançamento adiado, de volta às pranchetas para preparar melhor tudo isso aí.

É de se questionar se o estrago foi tão grande, ou se não havia formas de contornar o problema inesperado. Bloquear a versão vazada, talvez? A BlackBerry diz ter 60 milhões de usuários do BBM apenas na sua própria plataforma, logo deve estar acostumada a lidar com um grande fluxo de dados em seus servidores. Enfim, águas passadas. Não estipularam nova data, apenas que o app seria lançado em breve.

O “em breve” levou um mês exato e, hoje, o BBM para Android e iPhone foi lançado. Mas como nada é tão ruim que não possa piorar, além do atraso ele chegou com uma pegadinha um tanto desagradável.

Lista de espera para usar o BBM

Quem deu com a cara na porta mês passado ao tentar baixar o BBM viu um pequeno formulário de contato pedindo um email. A promessa era de avisar os cadastrados quando o app fosse lançado pra valer.

No fim, aquele formulário era mais importante que isso — na realidade, o tal email apareceu na minha caixa de entrada às 4h da manhã, muitas horas depois do lançamento de fato do BBM. A grande utilidade daquele formulário, no fim das contas, foi pular a lista de espera para começar a usar o BBM no Android e iPhone.

Não tem emoticon feliz que amenize a tristeza de uma lista de espera.

A BlackBerry diz que mais de seis milhões de pessoas deixaram seus emails. Esses podem baixar o app, fazer o cadastro e começar a usá-lo imediatamente. Quem ficou de fora precisa esperar. Quanto? O menor tempo possível, mas vai saber o que isso significa por lá.

Listas de espera para usar apps são um fenômeno recente. O primeiro grande caso foi o Mailbox, um app para gerenciar emails lançado em fevereiro. Antes de chegar à App Store fizeram vários teasers dele, o que acabou gerando uma demanda gigantesca. Era instituída, ali, a lista de espera para apps móveis.

Muito se debateu sobre a necessidade dessa artimanha, e o Mailbox, bem como outras empresas que aderiram à moda posteriormente, se defendem dizendo que por mais testes que façam, por mais servidores que tenham à disposição, às vezes a carga na nuvem é tão pesada que o serviço simplesmente cai e não levanta. Mesmo com fila, por exemplo, o Mailbox sofreu com quedas nos primeiros dias.

Em julho, Ellis Hamburger, do The Verge, publicou um bom texto sobre essa polêmica do mundo moderno. Há bons argumentos que justificam as listas de espera, há outros que mostram que, com muito trabalho e preparação, elas podem ser dispensadas, mas há uma certeza que ninguém consegue desbancar: lista de espera é um negócio chato. Em um smartphone, que seduz pelo seu sistema de recompensas instantâneas, com apps a um clique, tudo muito efêmero e imediato, isso pode ser fatal.

E no caso do BBM, não foi diferente. No TUAW, tradicional blog da Aol dedicado à Apple, Mike Wehner classificou a lista de espera da BlackBerry como ridícula e desceu o sarrafo na empresa. Nas redes sociais, então… Pelo menos uma galera tá levando na esportiva e comentando a lista de espera como se fosse uma física, tipo de lançamento de iPhone :-)

Indignação e polêmicas à parte, o BBM para Android e iPhone chegou, você já pode baixá-lo gratuitamente nas duas lojas de apps. Como a incidência de clones é absurdamente grande (pelo menos no Google Play), repasso a recomendação da BlackBerry: acesse bbm.com no seu smartphone. O site o redirecionará para o app correto na respectiva loja.

Se você é um dos contemplados com acesso imediato ao BBM, ou se já foi atendido após aguardar na fila (ou, ainda, deu aquele jeitinho de burlá-la), eis o que esperar do novo app.

https://twitter.com/Jesseosull/status/392386902881751040

(Ri muito desse tuíte aí em cima!)

Não se engane pelo visual, este BBM é o do Android

Testei o BBM em um smartphone Android. No sistema do Google, o app funciona na versão 4.0 e posteriores.

O visual Holo, que deu um trato há muito esperado no Ice Cream Sandwich, é basicamente ignorado pelo BBM. Na verdade, ele se comporta como um intruso. É como se você estivesse usando um app do BlackBerry 10 a partir do Android.

BBM nas três plataformas.
BBM no BlackBerry 10, iOS e Android.

O que, é bom avisar logo, não se traduz em “é um app feio”. Pelo contrário, é bem bonito e, confesso, essa tímida experiência com a identidade visual e diretrizes de UX do BB10 meio que me atiçaram a pelo menos dar uma olhada mais atenta no sistema. É bonito, é bacana, mas não é Android. Lembre-se: estamos falando do BBM para Android. Seria legal seguir a cartilha da casa.

O problema de se ignorar diretrizes de design em uma plataforma vai além de simplesmente não combinar — o que, ainda que discordem os utilitaristas, é também em si um problema. Os mais críticos, porém, surgem em incongruências de usabilidade, utilização de padrões incomuns na plataforma e aquela… estranheza geral.

No caso do BBM, por exemplo, a tela inicial é dividida em três áreas: Bate-papos, Contatos e Grupos. Mas há duas extras, nas laterais, acessíveis por botões nas extremidades inferiores. O painel à esquerda ainda pode ser exibido com um gesto de arrastar, semelhante aos do Windows 8. No da direita isso não funciona. A barra do topo, onde deveria ficar menus e acessos para outras telas (Action Bar)? Nada.

Não se engane, este BBM é o do Android.

Ao entrar em um bate-papo, o rodapé é preenchido por grandes botões de ação. Não são os únicos; existem outros na lateral direita oculta, acessível pelo botão de três pontos. A maior incongruência se revela no botão de voltar na interface do app que faz exatamente a mesma coisa que o botão de voltar do Android, que é persistente em todo o sistema e que também funciona no BBM.

Voltar do sistema e do BBM.

Não é nada que impeça o uso, ou o torne insuportável. Para um otimista, pode até funcionar como uma propaganda, um cavalo de Troia do BlackBerry 10 em sistemas concorrentes que vendem muito mais que Z10 e Q10. Na pior, ou mais comedida, mostra um certo desleixo com detalhes, especialmente quando posto perto de apps cujo desenho é tão adaptado ao Android, como Hangouts e WhatsApp. E uma curva de aprendizado maior, a ponto de vermos um artigo no maior blog dedicado à BlackBerry explicando a usuários de Android como executar ações básicas no BBM.

Questões visuais à parte, o BBM é muito rápido e funciona praticamente da mesma forma que, acredito, no BB10. Não sou muito versado em BlackBerry, mas à primeira vista só ficaram faltando os canais, anunciados em maio junto com o BBM para Android e iPhone, e a vídeo conferência.

O que ele tem de diferente?

Por anos o BBM conseguiu manter a fama de ser confiável, mesmo com uma queda feia de dois dias em 2011. Essa é uma bandeira que a BlackBerry usa bastante e, sejamos sinceros: dois dias em anos de operação é um desempenho notável.

Outro diferencial do BBM para os concorrentes é o uso de um código PIN para adicionar pessoas à lista de contatos. É menos invasivo fornecer um código exclusivo do app para um semi-desconhecido do que seu email, ou número do telefone. A segurança cobra seu preço em inconveniência: o código é gerado aleatoriamente e é grande. Não deve ser um obstáculo para quem ainda lembra de cabeça o UIN do ICQ, mas é um entrave para a maioria. Felizmente o próprio app oferece formas mais fáceis, como código QR e NFC, para estabelecer contato com outras pessoas.

Há bate-papos em grupos (até 30 pessoas cada) e uma função particularmente bacana, de mensagens em broadcasting. Com ela, dá para enviar uma mensagem a toda a lista de contatos de uma vez só. É uma coisa útil, mas que dificilmente se vê mesmo em apps que parecem ter sido feitos para esse tipo de operação, como o Snapchat.

Quer usar o BBM? Engula esse ícone aí, então.

No Android, há uma particularidade meio… chata. Por não usar a API de mensagens do Google, o app fica sujeito ao temperamento do sistema e à memória disponível. O método com que o Android gerencia a memória é o seguinte: enquanto haver memória livre, ele a consome. Faltou? Apps inativos são fechados automaticamente para liberar espaço aos que estão sendo requisitados no momento.

Apps de bate-papo que recorrem ao Google Cloud Messaging não têm que se preocupar com isso. O BBM, sim. A saída que a BlackBerry encontrou funciona, mas é deselegante, para dizer o mínimo: um ícone permanente na barra de notificações. Assim, o app fica “aberto” e não corre o risco de ser fechado, deixando de avisar o usuário sobre mensagens recebidas e outros alertas. Dá para removê-lo dali nas configurações, mas não é recomendável.

Outra coisa que reparei nesses testes iniciais é como ele degrada a qualidade das imagens enviadas. Abaixo, um comparativo com a mesma imagem recebida pelo Facebook (esquerda) e pelo BBM (direita). É normal serviços baseados na nuvem fazerem uma compressão em imagens para facilitar os envios, mas isso que o BBM faz é criminoso: ele diminui absurdamente a imagem e destrói sua qualidade.

A mesma imagem recebida via Facebook e BBM.
Clique para ampliar — imagem pesada, 426 KB!

O BBM chegou tarde

Apesar dessas críticas, o BBM é um app legal. Mas os tempos são outros, e as circunstâncias, desfavoráveis. Recorrendo mais uma vez a uma analogia romântica, não é você, BBM, sou eu. Ou melhor, os outros. Porque se tem um nicho de mercado que explodiu nos últimos anos, este é o de apps de bate-papo.

Conte comigo: Facebook Messenger, Hangouts, Skype, WhatsApp, Line, WeChat, Viber, Tango, KakaoTalk, MessageMe… ufa. Esses, apenas os que me ocorreram agora. Devem existir outros. São apps estabelecidos, com grandes bases de usuários. Se não, com empresas dispostas (e com caixa) para torrar muita grana até eles emplacarem, caso mais evidente o do WeChat, dos chineses da Tencent, que contrataram Messi como garoto-propaganda e botaram anúncios em horário nobre na TV brasileira.

Além de não ter tanto dinheiro assim para gastar na promoção do BBM, o momento delicado da BlackBerry gera desconfiança. Após sinalizar que está aberta à venda para outras empresas, e com rumores de que a Lenovo está interessada nesse negócio, há motivos para desconfiar da longevidade do BBM.

Por fim, tem aquele velho impasse de qualquer coisa que envolva pessoas em um sistema de apelo social: o dilema do ovo e da galinha. Ninguém migrará para o BBM se os amigos não estiverem lá. Não há uma receita para quebrar esse bloqueio inicial, mas no geral costuma ser a combinação de bom serviço, marketing agressivo e, talvez, uma pitada de sorte. Às vezes, só marketing agressivo — que o diga a Microsoft com seu MSN Messenger no comecinho da década passada.

O BBM para Android e iPhone poderia ser um sucesso estrondoso, mas para siso deveria ter sido lançado dois ou três anos atrás. Pode surpreender e virar mania? Pode, mas a quem queremos enganar? É pouco provável. Ele acaba sendo mesmo uma das melhores personificações de um dito inglês, o “too little, too late”. Chegou tarde, e chegou oferecendo pouco.


Agradecimentos ao Doni, Joel, Maomede e toda a galera que mandou screenshots da lista de espera para mim.

  • E eu que me cadastrei naquela primeira leva que não foi e não recebi email nenhum que agora, mesmo pedindo de novo.
    Bom, fico com WhatsApp e Viber mesmo e só troco pelo Hangouts (quando e se ele melhorar e integrar sms).

    RIP BB.

    • Uai, sério? Aqui foi bem tranquilo, consegui entrar direto e de primeira usando o email que cadastrei naquele formulário.

  • Fico com a impressão de que o tempo do BBM passou. Hoje ele só terá relevância para quem gosta de ter mil e um apps instalados para a mesma coisa e só. Assim, sigo com o WhatsApp.

    • Acho, e é puro chute, que boa parte dessa leva de pessoas baixando e instalando o BBM está nessa por mera curiosidade. Eu me encaixo nesse grupo :-)

  • Sistema de filas num aplicativo desta categoria é simplesmente uma falta de noção. Aplicativos de bate-papo precisam de pessoas usando para que outras usem (o dilema do ovo e da galinha), e como eu vou passar a usar se meus contatos (e até eu mesmo) precisam passar por uma fila de espera para usá-lo também?

    Alem do mais, sou do time que acha que portar a interface do aplicativo nos BlackBerry para Android, em vez de seguir o padrão do sistema, mostra desleixo.

    Por fim, acho este sistema de PIN aleatório péssimo. Honestamente, a pior alternativa. Usar um sistema de username escolhido pelo usuário já seria bom sem ferir a privacidade.

    • A lista de espera foi realmente um tiro no pé. Há boas justificativas naquele texto do The Verge linkado ali em cima (no caso do Mailbox, um dos co-fundadores cita um usuário que, no dia do lançamento, tentou importar 40 mil mensagens para a conta dele e quase derrubou o serviço), mas não imagino, de pronto, como um app de bate-papo passaria por um perrengue semelhante.

      Para um que precisa convencer as pessoas a usá-lo, quaisquer barreiras são ruins. Bem ruins.

      • Kadu Gaspar

        Sem contar que para um cliente de emails não é tão incoerente ter uma lista de esperas, mas no caso de um cliente de bate-papo como o BBM, que necessita de adoção em massa, é.

        • Sim, é um tiro no pé exatamente porque app de bate-papo precisa de gente para funcionar. Nem precisa ser bom — vide o MSN Messenger, que sempre foi muito inferior ao ICQ mas mesmo assim ganhou essa disputa pela preferência.

  • Kadu Gaspar

    Um comentário adicional: para mim estes clientes de bate-papo deveriam já pensar numa estratégia de marketing forte para daqui há ~1 ano. O Whatsapp se tornou mainstream de verdade este ano (até ano passado diria que tinha uma presença tímida, como o Facebook no começo de 2011), e muita gente – pelo menos entre as que eu conheço – não sabe que ele é pago e vai ter uma surpresa ano que vem. Destes, boa parte não tem cartão de crédito internacional.

    Está criado o cenário para a ascensão de um concorrente no Brasil.

    Eu acho.

    • O WhatsApp deve ter uma boa noção de que esse modelo por assinaturas é complicado — tanto que é raro ver alguém que já tenha pago para usá-lo, salvo usuários de iPhone antes do app se tornar gratuito por lá.

      Sempre há brechas para tomar uma liderança, seja pelo preço, por qualidade, marketing… O duro é encontrar esse ponto fraco e explorá-lo com eficiência.

    • Caio Curvelo

      Em agosto último a minha assinatura do WhatsApp foi renovada sem eu ter pago nada, e dois conhecidos disseram que as deles também.

      A empresa deve ter a noção de que o mercado brasileiro é grande e que, realmente, poucos tem cartão de crédito internacional, e estar bolando um método de pagamento mais inteligente. Cartão nacional, boleto, desconto nos créditos/fatura (o ideal na minha opinião), não sei… Mas desavisados eles não são!

      • Imagino que seja isso mesmo. Uso o WhatsApp há mais de dois anos, e também nunca me cobraram anuidade.

  • gustavo

    Só para saber, mandei email anteontem umas 10 da noite pra entrar na fila de espera, e agaora 6:50 da manha do dia seguinte recebi a mensagem que era o primeiro da fila e podia usar o BBM, então demorou cerca de 33 horas na fila de espera.

    • E no dia do lançamento. Nada mal. Melhor que isso só se não tivesse fila.

      • Concordo fiquei impressionado com a velocidade, achei que ia demorar varios dias, mas tambem fiquei impressionado que um app aberto (nao precisa de convite) precise de fila de espera.

  • O que significa o D e o R? muito bom..

    • “D” é de “delivered” (entregue) e “R” é de “read” (lido). São equivalentes aos tiques simples e duplos do WhatsApp.