O Paper é como o Facebook deveria ser: bonito, direto e informativo

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4/2/14, 13h35 5 min 3 comentários

Na véspera de completar 10 anos1 o Facebook liberou um novo app para iPhone chamado Paper. Com uma apresentação de cair o queixo e apostando na mistura do conteúdo gerado pelos seus amigos ao de curadorias especializadas, ele talvez seja um pequeno vislumbre do que será a rede social amanhã.

O melhor jornal personalizado do mundo

Paper, o novo app do Facebook.

O app do Facebook para smartphones nunca foi um exemplo de design, nem a personificação de boas práticas de desenvolvimento. Na tentativa de replicar em telas pequenas tudo o que pode ser visto na web, criou-se um espaço caótico — e a presença de anúncios só piora essa sensação.

O Paper consolida o desejo de Mark Zuckerberg de transformar o Facebook no “melhor jornal personalizado do mundo.” O app, por ora exclusivo para iPhone, lembra muito agregadores de artigos como o Flipboard e o Pulse, e consegue, com animações suaves, gestos espertos e eliminando distrações, botar ordem naquele caos. Ele conserva, além do Feed de Notícias, algumas outras áreas da rede, como notificações e perfis, embora não dê tanta ênfase a elas. Eventos, jogos e algumas outras ficam de fora.

O Feed de Notícias, no Paper, é um dos “cadernos”, ou seções que você pode acrescentar à sua lista de interesses. A semelhança a um jornal não parece ser acidental: ao abrir o app pela primeira vez, depois de passar pela bela introdução guiada (uma voz feminina o ensina a usar o app), pode-se escolher entre vários cadernos, ou editorias, para receber conteúdo.

Com exceção do Feed de Notícias, as demais seções são mantidas por editores profissionais contratados pelo Facebook. Elas são bem variadas e não visam prender o usuário dentro do ecossistema do Facebook, uma abordagem meio estranha dado o histórico claustrofóbico da rede. Não que eu esteja reclamando, longe disso. Outro efeito colateral dessa intereferência humana é o aumento da serendipidade, aquelas descobertas gostosas de textos, fotos e outros conteúdos agradáveis em momentos inesperados.

O design brilhante do Paper aponta para um futuro repleto de apps

Ainda é cedo para dizer se a curadoria, somada ao trabalho dos seus amigos e dos algoritmos do Facebook serão suficientes para fazer o usuário médio recorrer ao Paper como nossos pais abriam o jornal impresso à mesa do café da manhã. Mas uma coisa é segura de dizer: temos aqui um exemplo de app bem feito.

Diferentemente dos outros apps do Facebook, o Paper foi concebido no Creative Labs, um novo grupo restrito criado dentro da empresa para dar flexibilidade e dinamismo a novos projetos. O do Paper foi encabeçado por Chris Cox, VP de Produtos do Facebook, e conduzido por Mike Matas, que coleciona trabalhos magníficos em design e teve sua empresa, a Push Pop Press, comprada pela rede social em 2011.

Existem algumas diferenças pontuais entre o Paper e o que se esperaria de algo com a marca Facebook, começando pela ausência daquela azul característico do site. A estética do Paper é mais refinada.

[insert]Paper: um belo app.[/insert]

O app usa fotos em tela cheia, tipografia acertada e animações suaves para apresentar o conteúdo. Fotos grandes são manuseadas inclinado o iPhone para as laterais. Há menos botões e mais gestos, todos bem intuitivos. A navegação é horizontal, a rolagem vertical é reservada para a exibição de conteúdo. Quando se abre uma página web, aliás, ela ocupa a tela inteira, sem molduras. A tela de edição de “histórias” também ganhou atenção especial, é bem mais atraente que a sua contraparte no app principal do Facebook.

No geral, o Paper se parece com o Facebook Home do Android, só que mais refinado e menos ambicioso — ele não tenta mudar o jeito que você usa o smartphone, apenas oferece um outlet extra mais bonito e com boas fontes para quem deseja se manter informado.

Há muito em gestação, o Paper chega no momento em que o Facebook anseia por diversificar sua presença no espaço móvel2. Na última conferência com investidores Zuckerberg disse que em 2014 veremos mais apps dedicados a funções isoladas do Facebook. O novo e redesenhado Messenger foi o primeiro dessa safra, o Paper, o segundo. Se os próximos apps seguirem esse padrão de qualidade e foco, será cada vez mais difícil se livrar das garras do Facebook.

O Paper é gratuito e está disponível para iPhone (no mínimo iOS 7) apenas na App Store dos EUA.

  1. Pois é, 10 anos! Para celebrar, o Facebook criou um vídeo personalizado de um minuto para cada usuário da rede, mostrando as fotos mais curtidas, as primeiras e algumas aleatórias dos últimos anos. Clique aqui para ver o seu. Eu gostei um bocado do meu!
  2. É na palma da mão que o dinheiro se encontra. No último relatório fiscal referente ao quarto trimestre de 2013, o Facebook anunciou que 53% do faturamento veio de dispositivos móveis. O Paper ainda não exibe anúncios, mas deve ser questão de tempo até eles aparecerem no app.

Os equipamentos e apps que uso, 2014

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2/1/14, 18h03 14 min 28 comentários

Por mais simples que seja uma operação, ela demanda instrumentos, padrões e um workflow minimamente estruturado. É assim com o Manual do Usuário: um blog de um homem só, um homem preparado para ler, escrever, fotografar e filmar.

É bem comum usarmos momentos de ócio no fim do ano para reavaliarmos partes da vida, refletir onde erramos e onde acertamos e, nessa, fazer pequenos (ou grandes) ajustes. Resolvi usar parte desse tempo para contar a vocês o que uso (ou pretendo usar em 2014) no trabalho que desempenho aqui. Além de útil, quero também trocar figurinhas nos comentários, descobrir apps, equipamentos etc. É um post com segundas intenções :-)

Dividi o texto em três partes. Na primeira, dispositivos móveis. Quais estou usando, como, e que apps mais abro no dia a dia.

A segunda, computadores. Sim, essas coisas antiquadas mas ainda insuperáveis na hora de botar a mão na massa e mostrar resultados.

Por fim, equipamentos auxiliares — basicamente com o que e como faço fotos e gravações.

Detalharei alguns pontos ainda nebulosos, a minha ideia é um papo sincero contigo — incluindo aí dúvidas e ignorâncias. No geral, porém, meu workflow hoje é bem enxuto e direto, e deve ser essa a parte mais interessante a você.

Smartphones e tablet

Em 2014, irei de iPhone 5.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Passei por 2013 usando um Nexus 4 como smartphone principal e um iPad 2. Para o ano que começa, uma substituição: sai o smartphone Android, entra um iPhone 5.

Já tinha visto e mexido rapidamente em vários iPhones, mas nunca tive um como aparelho principal. Será um exercício legal e, como meu perfil de uso é bem eclético — confio mais em soluções multiplataformas do que nas soluções integradas e fechadas das fabricantes –, até agora a transição tem sido suave. A maioria dos apps está presente nas duas plataformas ou tem equivalentes.

Disclaimer: Além do iPhone 5 e do Nexus 4, também estou com um Lumia 920. Não virei traficante, nem quero ostentar. A ideia é acompanhar a evolução e novos apps das três principais plataformas móveis.

Até agora ocupo apenas duas telas iniciais no iOS — descontados os apps da Apple, todos devidamente largados em uma pasta.

Como smartphone e tablet usam o mesmo sistema, a lista abaixo vale para ambos, ainda que os usos deles sejam bem distintos. O iPad é minha tábua de leitura e consulta “sofazística” de redes sociais. Eventualmente vejo alguma coisa no Netflix e brinco com jogos, mas esses últimos têm sido cada vez mais raros. O iPhone é… bem, é um celular. É o gadget que mais uso, disparado, dentro e fora de casa.

Os apps que me acompanham são:

Chrome e Gmail

Mesmo com o desempenho em JavaScript afetado por limitações do iOS (ou da Apple), acabo usando o Chrome pela sincronia que ele proporciona — meus computadores rodam Windows. Não importa onde use o Chrome, a experiência é sempre bastante consistente, e isso é importante.

O Gmail uso pela patricidade e usabilidade superior à do app de email padrão do iOS. A exemplo do navegador, é outro caso onde suprimo a velocidade em prol de outras vantagens. Não reclamaria, porém, se o Google agilizasse a abertura do Gmail…

Newsify

Para ler feeds, é a minha opção. Três aspectos me agradam muito no Newsify: a tipografia acertada, a navegação por gestos e o modo tela cheia. São suficientes para ignorar a sensível lentidão apresentada no iPad 2 ante concorrentes como Mr. Reader e Feedly — ambos bem legais também.

Pocket

É bem melhor ler um longo artigo sentado ou deitado no sofá do que na minha mesa de trabalho, encarando o notebook. Para tanto, apps do tipo “leia depois” são indispensáveis. A minha escolha é o Pocket: ele é rápido, tem uma boa tipografia e alguns recursos sociais que encontram o difícil equilíbrio entre utilidade e ruído.

Recentemente dei uma chance ao Instapaper, é um belo app também. De lá, gostei muito do refinamento da interface e dos filtros por tempo — dá para, por exemplo, puxar artigos que podem ser lidos em menos de cinco minutos, algo bem útil para matar o tempo sem correr o risco de deixar um post lido pela metade.

Pocket e Newsify são, de longe, os apps que mais uso no iPad. Tenho ambos instalados no iPhone também. Vez ou outra abro-os no smartphone.

Simplenote

Rápido, com sincronia com a nuvem e cheio de apps para diversas plataformas (até web), o Simplenote é a minha escolha na hora de fazer anotações. Uso ele para tirar da cabeça ideias de posts, anotar referências e links para pautas em andamento e escrever mesmo os posts em Markdown — é bem mais confortável que usar uma barra de atalhos ou marcações em HTML.

Tweetbot 3

Não sou o que se consideraria um heavy user de Twitter, tanto que sempre me virei bem com o app oficial. Isso até a última atualização que colocou DMs em destaque e as menções em um ícone de notificações. Ela é desastrosa, para dizer o mínimo.

Em vez de chateá-lo apontando tudo o que há de errado com o app oficial do Twitter (é muita coisa), vamos falar algo bom, do Tweetbot. Apresentação linda, animações suaves, diversos gestos… Vale cada centavo.

No iPad continuo com o app oficial. Ele não mudou e, além disso, o Tweetbot para iPad ainda não foi atualizado para o iOS 7.

Dropbox

Nada de iCloud, SkyDrive ou Google Play. Mantenho os arquivos que preciso no Dropbox, que é acessível e amplamente adotado por desenvolvedores. O bom é que preciso pouco dele já que a maior parte do que faço é na web.

Bônus: desde que ativei o backup automático de fotos no app do Dropbox nunca mais conectei meu smartphone a um computador para passar essas imagens. Mão na roda, e funciona muito bem.

Alguns outros apps que tenho instalado, mas que ainda não explorei ou uso para lazer (em ordem alfabética):

  • Facebook, Instagram, Vine, Tinder, Tumblr: dispensam explicações, né? Tumblr e Facebook em ambos, os demais apenas no iPhone.
  • Facebook Messenger, WhatsApp: são os dois apps de mensagens que uso. Está bom, né? Só no iPhone.
  • Foursquare: assim como o Snapchat, o Foursquare também sofre com problemas de imagem — muita gente acha que é um facilitador para stalkers e ladrões. Não é. Há muito a apreciar ali e as coisas no Foursquare estão crescendo mais e mais. Apenas no iPhone.
  • IFTTT: com muito potencial, devo gastar uma tarde explorando e criando novas receitas — tenho poucas cadastradas, todas muito úteis e eficientes. Apenas no iPhone.
  • Netflix, YouTube: se a TV da sala for objeto de disputas recorrentes, o iPad é a melhor tela que você tem à mão. Netflix apenas no iPad, YouTube em ambos — embora dê para contar nos dedos as poucas vezes em que o utilizei no iPhone; reflexo da falta de integração entre apps do iOS, ponto onde o Android é melhor.
  • Rdio: nunca usei o app de música do iOS — e, no ano passado, do Android. Apenas no iPhone.
  • Snapchat: é divertido, intimista, muito mais que sexting — que, aliás, (in)felizmente nunca recebi. Só no iPhone.
  • Timehop: velho conhecido, deixei de usar quando a versão por email foi descontinuada. Com o iPhone posso, novamente, ler as barbeiragens que publiquei neste mesmo dia em anos anteriores. Sempre uma viagem. Só no iPhone
  • Yahoo Tempo: é um app muito bonito e com informações mais que suficientes para quem só quer saber se vai chover. Apenas no iPhone.

E, sim, tenho alguns joguinhos instalados. No iPad, um punhado de princesas e da Toca Boca para minha afilhada. No iPhone, no momento em que escrevo isso apenas três: Dots, Proust e Triple Town.

Notebook e desktop

Samsung Série 9, fechado.
Foto: Rodrigo Ghedin.

No começo de 2013 reduzi o papel do meu desktop, que é bem poderoso, ao lazer. Conectei ele à minha TV e desde então suas funções se resumiram a Steam e Netflix.

Minha principal ferramenta de trabalho, pois, passou a ser e ainda é o notebook. Tenho um Ultrabook Série 9, da Samsung, de segunda geração. Detalhei-o mês passado, mas resumidamente: é leve, rápido o bastante para quem navega e escreve, tem um bom teclado, um ótimo touchpad e uma tela incrível. É o suficiente para mim.

Ele roda o Windows 8.1 que, apesar de todas as notáveis melhoras em relação ao Windows 8, trouxe algumas chateações. As principais é a imprevisibilidade na reconexão após voltar da hibernação e as configurações do touchpad que se perdem quando o sistema reinicializa, coisas que a essa altura devem ter sido resolvidas por drivers atualizados. Devo tirar uma tarde para mexer nisso, mas é triste ver que o Windows ainda não conseguiu superar esse tipo tão bobo de problema.

Muito do que uso é web-based, então de apps mesmo, são poucos os que tenho instalado:

Chrome

Há quem reclame que o Chrome tenha ficado pesado, lento e instável, seguindo a infectível lei do Geek & Poke. Concordo que ele já foi mais rápido e estável, mas ainda não chegou a um estado tão alarmante que me faça procurar alternativas.

O grande atrativo do Chrome é a comodidade. A Omnibox se adapta muito bem a mim e os dados do meu uso vão para a nuvem e são replicados, sincronizados com outros dispositivos. O motor de renderização é muito bom, o que previne algumas dores de cabeça. Não é algo legal se pensarmos em padrões web e compatibilidade (não era na época do IE hegemônico, não é com o Chrome ou qualquer outro), mas é o que temos, infelizmente.

App de notas secreto

Ainda não posso falar muito deste porque ele não foi lançado. Boa parte do que escrevo passa primeiro por ele. É um app extremamente rápido e confiável de anotações que sicnroniza com o Simplenote — mais uma vez a sincronia com a nuvem e outros dispositivos conta pontos.

Espero poder falar mais desse app em breve. O mundo precisa conhecê-lo!

IrfanView

Este não sincroniza com nada, mas mantém outra característica primordial e compartilhada com outros apps da lista: é rápido.

O IrfanView é um visualizador simples de imagens. Não, é mais que isso. Ele abre um leque enorme de formatos de arquivos e, de quebra, possui pequenos recursos de edição que agilizam muito o trabalho e dispensam ferramentas mais elaboradas, como o Photoshop. Girar, redimensionar, mexer em brilho/contraste/saturação? Para que gastar mais de mil Reais e recursos da máquina se um app gratuito de 1 MB chega aos mesmos resultados?

Audacity

Para editar podcasts, uso o Audacity. É um app gratuito e de código aberto que, embora não seja o mais prático do mundo, apenas… funciona.

É difícil domar algumas funções, a interface não é amigável. Com dedicação e paciência para ver alguns vídeos no YouTube, porém, dá para aprender o básico da edição e fazer coisas audíveis.

7-Zip

Mais um gratuito e de código aberto. O 7-Zip traz, no nome, o formato de arquivo com que trabalha por padrão, e vai além: ele abre um punhado de outros, incluindo ZIP e RAR, e compacta em ZIP. A interface, como é de praxe em apps de código aberto, é espartana, mas ele é (olha aí de novo) rápido e confiável.

Notepad++

Não que eu goste, mas cuidar de (todo) um site exige que eu, às vezes, mexa em código. Coisa simples — HTML, CSS, alterar algum valor em um JavaScript.

O Notepad++, outro gratuito e de código aberto, colore o código, permite abrir vários arquivos em abas, compará-los lado a lado e tem uma busca (com substituição de termos) poderosa.

Possível troca: tenho lido muita coisa boa sobre o Sublime Text. Devo dar uma chance a ele qualquer hora.

Dropbox

Pelos mesmos motivos que o uso no iPhone.

FileZilla

Tal qual o Notepad++, mais um que a manutenção do blog exige que eu tenha instalado. Também gratuito e também open source, é uma ferramenta funcional.

E… bem, é isso. De resto, tenho o VLC que, aqui, raramente uso, o Office 2010, outro que acumula poeira e o Java, desativado quase sempre, ativado apenas para emitir notas fiscais. De apps modernos, do Windows 8, os que uso são o Skype e o Netflix — esse último um raro caso de app não só bom, mas melhor que os de outras plataformas móveis.

Todo o resto

Sony NEX-5R.
Foto: Rodrigo Ghedin. (Esta foi feita com o Lumia 920.)

As fotos e vídeos do Manual do Usuário são feitos com uma NEX-5R, câmera mirrorless da Sony, usando a objetiva padrão, uma 16-50 mm/F3,5-5,6. A qualidade é soberba e o manuseio bem bom, graças aos dois discos que facilitam controles manuais. Sempre rola algum estresse para conseguir foco em fotos próximas (a lente não é adequada para isso), mas essas histórias quase sempre terminam com um final feliz — seja usando o foco manual, seja com o rápido foco automático.

O único acessório que utilizo com a câmera é um tripé. Desses baratinhos, sem marca e, claro, ruins. Ele range e embora seja leve, é também duro, o que dificulta tomadas de transição suaves ao fazer vídeos. Compenso deixando-o de lado e usando objetos incomuns, como potes de margarina, como apoio para conseguir o que quero.

Por fim, utilizo um headset da Microsoft, o LifeChat LX-3000, para gravações de áudio — podcast e as falas que, depois de gravadas e tratadas no Audacity, importo para o software de edição de vídeos. É o segundo que tenho em um intervalo de cinco anos e tirando o controle no fio, grande e desengonçado, de resto ele é bem bom.

Faço a edição dos vídeos no desktop, ligado à TV mesmo. O poder de processamento ultrapassa o incômodo de trabalhar no sofá — por mais confortável que essa frase soe, não é muito legal na prática. O software de edição é o Movie Studio Platinum 12, também da Sony. É uma variante mais simples (e mais barata) do Vegas Studio, com recursos suficientes para o nível de qualidade que almejo.

O tratamento das fotos faço com o IrfanView.


Enquanto escrevia este post me veio à cabeça o longo e doloroso processo pós-reinstalação do Windows a que me submetia alguns anos atrás. É engraçado porque naquela época, com menos responsabilidades e coisas para fazer no computador, instalava bem mais aplicativos — a maioria pouco usada, mas me sentia na obrigação de tê-los à mão. Hoje? Quanto menos, melhor, e esse foco em resultados se reflete até na cara do sistema, que raramente vê um tema ou wallpaper diferente do padrão.

Essa lista não é imutável, estou sempre de olho em novos apps e gadgets que possam, de alguma forma, melhorar o meu fluxo de trabalho. Na minha mira, por exemplo, está um tripé melhor. Existe muita coisa no mercado e a toda hora surgem novidades; é preciso pesquisar e considerar bem novas aquisições. Além do custo, integrar algo diferente à minha rotina precisa ser mais que um mero capricho.

Fico por aqui e reforço o convite para que você, leitor, dê seu pitaco nos comentários.

Imagem do topo: OZinOH/Flickr.

O que explica a popularidade do MomentCam?

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14/12/13, 17h46 3 min 5 comentários

MomentCam: primeiro lugar na App Store brasileira.
Foto: Rodrigo Ghedin.

O MomentCam ocupa o primeiro lugar no ranking de apps gratuitos da App Store e está no Top 10 da mesma lista no Google Play. Desenvolvido pelos chineses da Hightalk Software, por onde passa ele se torna um fenômeno: primeiro na China, depois nos EUA (antes da versão em inglês surgir), sem falar em outros países menores no meio do caminho. Agora, mesmo sem falar o português ele explodiu em popularidade no Brasil.

Atualização: Na página do Manual do Usuário no Facebook, o Pablo indicou uma outra, a Sua foto em Caricatura. Com 24h desde a sua criação, ela já angariou 425 mil curtidas publicando algumas caricaturas e sempre pedindo, nas legendas, “Curta a foto e comente ‘EU'” para escolher um deles e transformá-lo em caricatura. Espero de verdade que esse meio milhão de pessoas descubra de alguma forma o MomentCam.

No Google Play a descrição do MomentCam traz trechos inspirados, como “Venha se divertir com o MomentCam, ele deixará a sua vida diferente” e “Nossa equipe é um grupo de jovens artistas e desenvolvedores com um sonho e corações enormes para trazer alegria e diversão a todas as pessoas do mundo”. Ok, então…

Deixando a filosofia barata de lado, o app é simples. Ele consiste em tirar uma foto, ajustar a posição dos olhos e da boca e escolher um template. O MomentCam traz um punhado de desenhos prontos e mescla a eles a foto recém-tirada, pegando da pessoa apenas o rosto.

É um selfie mais elaborado, uma fórmula que exerce estranho fascínio nas pessoas — é impressionante o tanto de gente compartilhando caricaturas criadas com o app. Talvez a vontade de compartilhar surja da preservação de traços marcantes que tornam reconhecível a caricatura em um template… atraente? Bonito? Divertido?

As teorias da conspiração por trás do sucesso do MomentCam

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MomentCam no Android.
Imagens: MomentCam/Reprodução.
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Alguns sites americanos, como o The Next Web, levantaram suspeitas sobre o sucesso meteórico do MomentCam. Ouriel Ohayon, co-fundador da Appsfire, disse à reportagem nunca ter visto algo assim:

“Ou existe alguma coisa que estou deixando passar ou eles estão usando táticas suspeitas para crescerem e obterem reviews positivos — os reviews na App Store norte-americana parecem todos estranhos. Consigo entender por que o app é bem sucedido na China ou na Ásia, mas seu posicionamento nos EUA não faz sentido.”

Não é só nos EUA, é no Brasil e em diversos outros países — o infográfico da Appsfire mostra o MomentCam bem posicionado em diversos lugares. Há umas coisas estranhas, como ele pedir permissão para se manter ativo em segundo plano e ter acesso às informações de ligações (?), mas daí a uma teoria da conspiração…

Instalei o MomentCam para ver como ele funciona. O app é bem feito: rápido, esperto e oferece mesmo uma infinidade de desenhos e opções de personalização. Tudo meio bobo, mas adequado à proposta. E com atualizações generosas que aumentam em muito o acervo de templates, talvez esse parágrafo resuma a fórmula do sucesso.

De qualquer forma, o MomentCam é intrigante. Seríamos nós criançonas que torcem o nariz para doll makers, mas que ficam malucas quando um deles coloca o nosso rosto no boneco? Não sei. Espero que explicações, ou tentativas, surjam aí nos comentários.

Enquanto isso, fique com um desenho meu feito no MomentCam:

Exemplo de caricatura feita no MomentCam.

É impossível sair do Tubby e do Lulu sem deixar resquícios

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3/12/13, 23h14 7 min 26 comentários

Luluzinha gritando -- provavelmente com o Bolinha.

Lulu, Tubby, revanchismo, machismo, sexismo, brincadeira, coisa séria… Independentemente da forma com que você encare esses dois apps que trazem para o século XXI a inesquecível Guerra dos Sexos do Faustão, a fofoca de bar, um ponto é unânime: é bem chato se surpreender listado num dos dois sem ter sido consultado antes.

No Manual já falei de um outro problema do Lulu, de ordem mais filosófica do que prática, e no último podcast abordamos o app com um enfoque mais “vida real” — como ele é recebido em rodas de amigos e que estragos causa ou pode causar. Apesar de eu encará-lo como algo mais em tom de brincadeira do que um destruidor de homens com a masculinidade sufocada, é indefensável como a dinâmica do app, de preencher o mural das meninas com os perfis dos seus desavisados amigos no Facebook, é agressiva.

As consequências dessa abordagem se dividem em duas. A primeira, imbróglios jurídicos. O Ministério Público já investiga o app e ações individuais começam a pipocar pelo Brasil.

A segunda, cheia de boas intenções, lotada de desinformação, é a onda de tutoriais ensinando a cair fora do Lulu — e, como medida preventiva, do Tubby, o equivalente masculino do Lulu que está sendo feito a toque de caixa por um trio de brasileiros. Eles não funcionam porque ignoram o modo de funcionamento da API do Facebook, os pedaços da rede que ela libera para que desenvolvedores criem apps e serviços em cima desses dados.

Entendendo a privacidade no Facebook

O passo a passo mais comum para sair do Tubby e do Lulu é um que leva o usuário às configurações de aplicativos no Facebook e pede para que ele desmarque um punhado de caixas de seleção. Este aqui, por exemplo. Não perca seu tempo seguindo-o, ele não tem utilidade alguma porque não alcança as informações de que o Lulu e o Tubby precisam. No caso, seu nome, foto e lista de amigos.

É preciso entender como o Facebook funciona. Nossos perfis são compostos por diversos campos. Alguns, esses listados na página que o tutorial acima menciona, opcionais e ocultáveis. Outros, públicos. A ajuda do Facebook lista quais são esses:

  • Nome.
  • Foto de perfil.
  • Sexo.
  • E número identificador (ID) da conta.

O Facebook se justifica dizendo que elas são essenciais para que as pessoas se encontrem lá dentro e, nessa mesma ideia, a lista de amigos é uma forma de facilitar esse contato. Até dá para editar a visibilidade da lista de amigos, mas ela se refere apenas à forma com que seus amigos a veem. O Lulu e o Tubby não são afetados, eles pedem acesso à lista de amigos pela API e, para isso, não existe configuração no Facebook capaz de bloquear. (O bom senso, talvez, mas é querer demais que as pessoas leiam uma caixa de diálogo, reflitam sobre o que ela pede e, mais que isso, desistam de dar uma olhadinha e, de carona, ceder seus amigos para os apps.)

Sendo uma rede social, onde a interação entre as pessoas é o que a faz funcionar, é uma justificativa válida. Infelizmente, ela dá brechas a ações menos nobres, como as dos já citados apps. Esses quatro pontos são suficientes para que eles coloquem você em suas listas — graças à autorização de um amigo qualquer, concedida no momento em que ele entrou em um dos apps com autenticação via Facebook.

Como sair do Tubby e o Lulu?

Não dá.

Eu sei que é chato, mas não dá mesmo — não sem deixar rastros. Eu e o Bruno Briante, que levantou essa bola no Facebook, quebramos a cabeça em busca de uma saída, mas com exceção dos meios oficiais (e obscuros), não rola mesmo.

Aviso às mulheres que não querem estar no Tubby.
A mensagem de mau gosto do Tubby para as mulheres que quiserem remover seus perfis do app. Imagem: Tubby/Reprodução.

A princípio imaginei que bloquear o app pudesse impedi-lo de me alcançar. A estratégia não funcionou porque bloqueio não impede que seus amigos, ao acessarem o app, cedam suas informações públicas, as mencionadas acima, através da permissão de acesso às listas de amigos.

O app não se relaciona com seu perfil, ele simplesmente chega até ele através de outros amigos. O bloqueio só age na relação usuário-app, que não precisa ser estabelecida no caso do Lulu para que alguém apareça lá. Ele pega todo mundo que está no Facebook por tabela, através de quem entra.

Uma saída seria não ter amigos no Facebook, mas aí… né? Outra, que ninguém usasse o app, o que é complicado também.

Sair do Tubby e do Lulu pelos métodos oficiais significa sacrificar seus amigos — e dados pessoais

A única forma de remover seu perfil no Lulu e no Tubby é através dos links que os dois sites oferecem — sair do Lulu; sair do Tubby.

Ocorre que a remoção do perfil é condicionada à “instalação” do app no seu perfil, o que significa que, ao sair, você precisa entrar e, nessa, conceder ao Lulu e/ou ao Tubby acesso à sua lista de amigos (muito provavelmente para inclui-los no app) e um punhado de outras informações pessoais.

Para se descadastrar, Lulu pede informações do usuário.

Não se sabe exatamente como o Lulu e (imagino) o Tubby mantêm esse controle de quem não deve aparecer no site, ou seja, de quem solicitou a remoção do perfil.

O Bruno acredita que eles montam uma lista com as IDs do Facebook e batem com as listas de amigos dos usuários que chegam, excluindo as que aparecerem nas duas. É uma tática simples e que, em tese (reforçando), permite que os privilégios do Lulu/Tubby sobre sua conta no Facebook sejam removidos depois sem que com isso você volte a figurar neles.

A única saída possível

Como lidar? Não sei. Uns podem argumentar que é uma falha de design do Facebook, outros que a vida assim, quem se sujeita à rede social tem que arcar com alguns ônus. É, sem dúvida, uma situação desconfortável, talvez passível de sucesso nas incursões que alguns usuários do Facebook, indignados com ela, estão fazendo à justiça brasileira — existe o posicionamento, não muito difícil de colar, de que o Facebook é co-responsável por esses cenários que se formam em torno do Lulu e do Tubby.

Pedir para sair é um exercício de fé cega e irrestrita: ninguém garante o que os dois farão com os dados dos usuários. Pode ser um golpe, pode ser, no caso do Tubby, um artifício para obter acesso aos perfis de milhares de mulheres (por mais que eles digam que não), qualquer coisa. É muito poder para um app que se impõe com tanta força e, ao mesmo tempo, dá sucessivas demonstrações de imaturidade, como soltar um EITA PORRA em comunicado público.

No fim, a única saída reconhecidamente eficaz para não aparecer no Lulu, Tubby e outros aplicativos duvidosos do gênero é uma só, esta aqui.


Agradecimentos ao Bruno Briante, que trouxe à tona esse insight esperto sobre a API e opções de privacidade do Facebook e se dispôs a tirar várias dúvidas a respeito. Valeu!

Amazon Appstore e o universo de lojas de apps alternativas do Android

Por
25/11/13, 18h25 6 min 6 comentários

App da Amazon Appstore em um Nexus 4.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Semana passada uma nova loja de apps desembarcou no Brasil. Presente em mais de 200 países, a Amazon Appstore é compatível com Android e se apresenta como alternativa ao Google Play. Mas… por que ter outra loja de apps instalada no seu celular?

A possibilidade de instalar apps de terceiros é um dos grandes trunfos do Android frente a seus concorrentes diretos, iOS e Windows Phone. Além de outras lojas que não o Google Play, o sistema ainda permite a instalação manual de apps, através de arquivos APK, da mesma forma que se faz no Windows com executáveis (EXE, MSI e alguns outros). São maneiras de se conseguir apps que o Google não aprova, por quaisquer motivos, ou com preços menores ou até mesmo de graça, via promoções.

A Amazon Appstore não é a primeira alternativa. Ela existe há algum tempo lá fora e, embora seja acessível a qualquer usuário de Android, em alguns países tem importância estratégica para a Amazon: abastecer os tablets Kindle Fire com apps. Como eles rodam um Android modificado, sem a experiência Google, o Google Play não é uma opção neles. Quem tem um Kindle Fire precisa recorrer à própria Amazon para baixar novos apps e jogos para seus tablets.

Por que eu instalaria a Amazon Appstore no meu Android?

A Amazon Appstore no Android.

É difícil concorrer com o Google. Além da Play Store vir pré-instalada em boa parte dos Androids vendidos no mundo, ela é a primeira opção para a maioria dos desenvolvedores. É o dilema do ovo e da galinha superado: a loja tem muitos clientes e muitos desenvolvedores publicando lá. Todos ganham, inclusive o Google, que faz a ponte entre essas duas partes, coordenando tudo — e fisgando uma porcentagem de cada transação que rola ali dentro.

Uma parcela de smartphones e tablets Android, porém, vem sem a Play Store. Além dos gadgets da Amazon, outros que não licenciam os serviços e apps do Google também não oferecem tal comodidade a seus usuários. É muito difícil encontrar exemplares do tipo no ocidente; por aqui, quando isso acontece é em dispositivos obscuros e baratos de marcas semi-desconhecidas. No oriente, porém, especialmente na China, onde o Google não tem a mesma presença que aqui e vive se estranhando com o governo autoritário do país, é o cenário mais comum. Lojas alternativas são numerosas e populares por lá.

Para se tornarem atraentes a quem tem acesso ao Google Play, as demais apelam para diferenciais. No caso da Amazon Appstore, há uns interessantes:

  • Um app grátis por dia. Na semana de lançamento tivemos um Angry Birds, Paper Camera e TuneIn Pro.
  • Usar cartão de crédito nacional, coisa que ainda não é possível pelo Google Play no Brasil.
  • Escapar da flutuação do dólar, que pode trazer surpresas desagradáveis no vencimento da fatura do cartão, e do IOF. Como a Amazon tem uma operação comercial completa no Brasil, ela pode cobrar localmente, em Real e livre do imposto sobre operações financeiras que incide em compras no exterior — a modalidade que ocorre nas transações feitas pelo Google Play.
  • Recomendações de apps baseadas no que você costuma baixar/comprar.

Além desses benefícios para quem tem um Android no Brasil, a chegada da Amazon Appstore abre espaço para especulações sobre a vinda dos tablets da empresa para cá. Os e-readers já são vendidos; estariam os Kindle Fire, baratos e bem avaliados lá fora, prestes a estrearem aqui?

As alternativas à alternativa: lojas de apps além da Amazon Appstore

Como dito, a Amazon Appstore não é a primeira loja que se apresenta como alternativa ao Google Play. Outras estão no mercado, lutando pela atenção dos usuários e o amor dos desenvolvedores.

A primeira que usei, aliás, precedeu o Android Market — antigo nome do Google Play. Nos idos de 2010 a AppBrain tinha um recurso matador e único: instalação remota de apps. Usando um computador, dava para “mandar” instalar um app no celular à distância. Hoje a Play Store faz essa comodidade, mas naquela época era o grande diferencial da AppBrain e o que levava muita gente a usá-la em detrimento da loja oficial.

Perder tal exclusividade não fez com que a AppBrain acabasse. Atualmente ela oferece um SDK, o AppLift, para que desenvolvedores integrarem publicidade em seus apps, um sistema de recomendação de apps próprio e a possibilidade de compartilhar na web listas com os apps que você tem instalado. E, embora tal detalhe não vá despertar o desejo de baixar todos os seus apps de lá, ela tem um blog bacana onde saem comentários de mercado, estatísticas e opiniões.

Outra loja alternativa é a App Center, do conglomerado AndroidPIT. Os diferenciais são a janela de arrependimento na compra de apps, de 24 horas (contra 15 minutos no Google Play), a aceitação de PayPal na hora de pagar por eles e reviews de apps feitos pela própria equipe do site.

Existem mais, inclusive algumas especializadas em nichos. A MiKandi, por exemplo, só tem apps adultos. Ela se diz a maior loja de apps pornográficos do mundo, com quatro milhões de usuários e mais de oito mil apps, e não tem vergonha de apostar em invencionices a partir da união entre tecnologia e sexo — aquela paródia de filme pornô com Google Glass, por exemplo, foi iniciativa dos caras.

Desconheço de pronto, mas devem existir outras tantas lojas alternativas, de nicho e até que disponibilizam apps piratas. A exemplo da maioria dos usuários, para mim essas mainstream são suficientes. Ter opções, porém, é sempre uma boa — e o app gratuito diário da Amazon Appstore, por si só, já é um bom motivo para tê-la em qualquer aparelho.

Você usa alguma loja de apps além do Google Play?

O reducionismo do Lulu, o app de reviews de homens

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22/11/13, 20h15 5 min 20 comentários

O Lulu chegou ao Brasil com uma ótima localização e marketing agressivo para atrair mulheres interessadas em ajudar amigos a ganhar moral com possíveis pretendentes ou fazer aquele desabafo anônimo de caras que não foram legais com elas.

Em uma definição simples, o Lulu é um app de reviews de homens. Em um contexto maior, mais um que mistura bits com sentimentos.

A primeira das várias polêmicas recai na objetificação dos homens, no sentir na pele o que as mulheres vivem no dia a dia desde que o mundo é mundo. Polêmica que cai por terra pelo clima descontraído que norteia o Lulu e porque… bem, talvez até existam, mas é meio rara a figura do homem-objeto, seja em um app, seja andando por aí. Bater nessa tecla é reforçar a ideia insana de preconceito contra héteros, por exemplo.

Poderia desenvolver melhor o raciocínio, mas já o fizeram em 140 caracteres:

Aos incomodados, existe a opção de pedir a remoção do perfil no app. Ele não é “opt-in”, ou seja, não cabe aos homens se cadastrarem lá e esperarem as opiniões; atrelado ao Facebook, todo mundo começa automaticamente dentro da brincadeira. Um ponto perigoso e com enorme potencial de acabar em briga na justiça.

Antes de chegar a esse extremo, porém, o Lulu é capaz de estragar um encontro, ou magoar algum marmanjo?

Difícil. O ambiente é controlado e abusa do bom humor. As hashtags são pré-definidas e mesmo as negativas foram redigidas de forma descontraída. Os homens podem apelar contra o que as mulheres disserem dele incluindo eles próprios as hashtags que acharem adequadas.

De qualquer forma, nada exclui as notas e as hashtags mais cruéis delas e, nessa, imagino que deva ser preciso uma autoestima elevada para quem ficar com nota vermelha ou for bombardeado com #FriendZone e #Cascão. O suficiente para amaldiçoar o destino amoroso de um homem para sempre? Pouco provável.

A minha grande crítica ao Lulu é outra, é em relação ao reducionismo da proposta, algo que paira sobre mídias sociais e sobre a Internet de modo geral.

Viramos números, arrobas, resultados de algoritmos que processam informações por si só reduzidas, distorcidas. Vai do mais escancarado, o Klout, até os anúncios que Facebook e Google direcionam baseados no que fazemos online. Estamos nos adequando aos computadores ante a incapacidade deles de, no momento, se adequarem a nós. Como David Auerbach conclui em seu belíssimo ensaio na n+1, “a estupidez deles [computadores] se transformará na nossa”.

Esmiuçando o problema de transformarmos personalidades em dados binários, na hora de avaliar aspectos da natureza humana o leque de alternativas extrapola em muito duas alternativas, o “sim ou não”. Não raro, a razão dá lugar à emoção e detalhes circunstanciais e/ou temporários ganham pesos desproporcionais em relação ao todo.

Um casal sem uma boa química não significa que ambos ou um deles seja uma pessoa a ser evitada. A pessoa “X” que no relacionamento com “Y” era distante, pode ser só amores com a “Z”. Posso ter conhecido alguém e ficado com ela uma noite; qual a base que essa mulher teria para me avaliar?

Se somos tampas procurando a panela compatível, limitar as opções baseados em um app é reduzir uma questão complexa a uma solução capenga, falha.

Pareço exagerado, mas é esse o tom de Alexandra Chong, co-fundadora do Lulu, na matéria do New York Times.

“Quando você pesquisa um cara no Google, não quer saber para quem ele votou ou qual foi o tema de conclusão de curso dele. Você quer saber se as sogras gostam dele. O cara tem bons modos? Ele é atencioso?

(…)

Você não tem controle se o cara é ótimo ou um babaca e no fim da experiência, mesmo que ninguém leia você sente que deu o troco no cara. Você recuperou parte do controle.”

Um discurso que parece descompassado com a realidade do Lulu que, como já dito, tem um ar bem leve. Talvez fosse legal os criadores do app se posicionarem mais firmemente em relação a isso.

Como os caras ficam no Lulu.
Arte: Brenton Powell/Tumblr.

Não vejo com maus olhos o auxílio da tecnologia na hora de flertar. Sendo um introspectivo e a princípio desinteressado, pelo contrário; acho essa tendência bacana. O grande dilema aqui é o contexto, ou a falta dele.

Homens falam de mulheres, imagino que mulheres também falem de homens. A diferença entre essa prática antiga e o que Lulu proporciona é que nesse último o alcance das críticas é bem maior e livre do contexto que a convivência com os parceiros de fofoca oferece. Na forma como se apresenta, o Lulu é um julgamento tácito, uma condenação sumária sem a mínima possibilidade de defesa.

Talvez o Lulu fique só como “o assunto do Twitter no dia 22 de novembro de 2013”, talvez cole e vire a certidão de cara legal do século XXI. Mas a exemplo da Vivian, depois de ver os dois lados do app, no celular de uma amiga e no meu próprio, acredito que seja só uma farra, uma brincadeira sem maiores consequências. Na verdade torço para que seja o caso. Seria muito chato ser dispensado de antemão porque ganhei a hashtag #MaisBaratoQueUmPãoNaChata. O que não é o caso. Acho.

1 Second Everyday registra sua vida em pequenos vídeos de um segundo

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4/11/13, 10h00 5 min 6 comentários

Tiramos fotos e gravamos vídeos para registrar momentos. Anos mais tarde, quando revisitamos esses momentos de outrora, é inevitável que certas lembranças voltem com força. É como um diário, mas visual, com mais apelo junto à nossa memória.

Não é raro se deparar com vídeos na Internet de time lapses. Uma foto atrás da outra que passam a sensação de movimento e condensam, em poucos minutos, talvez anos de trabalho. E se você pudesse fazer algo assim de uma maneira fácil, quase automática? É a proposta do 1 Second Everyday, app para iPhone e Android.

Cesar Kuriyama e seu ano de folga

O 1 Second Everyday é a realização do primeiro projeto pessoal de Cesar Kuriyama. Após assistir a uma palestra de Stefan Sagmeister, ele resolveu seguir o exemplo dele e tirar um ano de folga. Nesse período, gravou um vídeo de um segundo por dia. Ao final de um ano, tinha pouco mais de seis minutos que condensavam os 365 últimos dias. Ele curtiu a brincadeira, tanto que decidiu levá-la a mais pessoas.

Em um TED de 2012, Kuriyama contou a história do 1 Second Everyday:

O app foi criado pela Touch Lab, uma empresa de Nova York, e financiado via crowdfunding em uma bem sucedida campanha no Kickstarter que conseguiu angariar mais que o dobro pedido. O resultado é um app bem feito e muito tranquilo de usar.

1 Second Everyday

Um segundo de cada dia da minha vida no 1 Second Everyday.

Disponível para iPhone e Android, o app é basicamente igual nas duas plataformas. Ele se apresenta como um grid/calendário; nos dias em que pelo menos um vídeo foi gravado, o retângulo fica laranjado. Toque nele, recorte o trecho de um segundo desejado, e o laranja cede espaço a uma miniatura daquele dia. Com o tempo, a tela inicial fica bonita, cheia de momentos da sua vida.

É possível criar múltiplas linhas do tempo dentro do app. A partir dele, também, dá para filmar o um segundo, embora o uso do app da câmera (ou de qualquer outro que faça vídeo) funcione tão bem quanto. A área de seleção do segundo é bem versátil: o vídeo é exibido na íntegra e, no rodapé da tela, fica um seletor para escolher, com um bom nível de precisão, o trecho exato a ser salvo.

As configurações se limitam a duas: lembretes e sincronização. São cinco lembretes que podem ser ativados, para vários períodos do dia, que surgem na área de notificações de forma bem simpática, sempre com algum dado (verídico ou falso/engraçado) sobre o tempo e lifelogging.

A opção de sincronização é importante, diria até recomendável. Com ela ativada, os snipetts de vídeo são salvos na nuvem — no Google Drive em aparelhos com Android, e no iCloud, no iPhone. Além da segurança, é uma bela precaução para caso você perca seu smartphone.

O 1 Second Everyday é fácil de usar.

O 1 Second Everyday é parcialmente gratuito. O app não cobra nada para ser usado no registro das entradas, apenas na hora de compilar vídeos com mais de 30 dias. E mesmo aí o valor é baixíssimo, apenas US$ 0,99.

Lifelogging

Venho usando o 1 Second Everyday desde que ele foi lançado, no começo de agosto. Muito do que Kuriyama diz na palestra eu pude sentir na prática: a mera presença do app instiga a busca por coisas diferentes. Existe o compromisso e completá-lo todos os dias é bem satisfatório, ainda que nem sempre o lapso registrado seja empolgante.

Nem sempre dá, é verdade. Esqueci-me duas ou três vezes de gravar alguma coisa nesse período. Digo a mim mesmo que esses buracos deixarão o vídeo mais similar à vida, imperfeito. Uma mera desculpa filosófica para falhas que, de verdade, são difíceis de justificar — o celular está sempre comigo e deixo um lembrete configurado no app. Ele é bem rígido, aliás: esqueceu de gravar? Já era. Não dá para trapacear e puxar vídeos de outros dias, nem de outros dispositivos. É seu celular, naquele dia, e só.

Registrar um segundo por dia é mais fácil do que manter um diário, é mais rápido de recuperar/ver e tem um “peso” psicológico realmente notável. Um segundo, aliás, parece pouco, mas a mim é um bom ponto de equilíbrio: tempo suficiente para desencadear memórias, mas não o bastante para expôr o usuário. (A parte de compartilhamento, aliás, é opcional. Se quiser gravar os vídeos e deixá-los guardados no celular ou computador, o app não o obrigará a publicá-lo em redes sociais.) Nada como a maluquice da SenseCam, ou a esquisitice de um Google Glass. Um, e apenas um segundo.

Mesmo em pouco mais de três meses, rever um segundo de alguns dias especialmente felizes é bacana, recompensa o trabalho que dá — e me faz lamentar o 1 Second Everyday não ter surgido antes. Não sei se terei pique para manter esse hábito, mas gosto de pensar que sim. Tentarei isso, digo. Sinto-me desconfortável em tirar o celular do bolso e gravar, ainda que apenas alguns segundos, algumas cenas em certos lugares, mas no fim das contas (ou de um ano) é um pequeno incômodo que se dilui em meio a tantas boas lembranças.