CD da Aol.

Em 1998, a Aol usou toda a capacidade de produção de CDs do planeta

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29/4/15, 15h23 5 min 27 comentários

A passagem da Aol no Brasil deu bem errado (chegou em 1999, não emplacou, vendeu a base de clientes ao Terra e foi embora em 2006). Bem diferente do que aconteceu em sua terra natal, os Estados Unidos. Com uma estratégia baseada em marketing direto de CDs e pegando carona no nascimento da Internet comercial na década de 1990, a Aol foi grande por lá.

Esta história vez ou outra volta às manchetes dos sites de tecnologia, mas só porque é muito boa. Os mais novos ou desconectados naquela época talvez não se lembrem da estratégia da Aol, mas antes de explicá-la é preciso entender como a própria Internet funcionava então. Nos primórdios, além de pagar pulsos à operadora de telefonia era preciso comprar horas de acesso de um provedor. Sim, você pagava dois “pedágios” para dar umas risadas no Humortadela, conversar no IRC e baixar músicas no Napster.

A estratégia agressiva da Aol funcionava da seguinte maneira: eles fabricavam CDs com o aplicativo, uma espécie de faz-tudo com navegador, cliente de e-mail e bate-papo (o AIM, na época muito popular nos EUA), e que davam um tanto de horas de acesso gratuito. No começo eram poucas, coisa de 30 horas. Nas últimas versões, como as 8.0 e 9.0, chegavam a mais de mil (!) horas. E havia outro detalhe: os CDs eram facilitadores do processo de configuração. Colocar um PC na Internet por conexão discada não era trivial ao usuário leigo. Com o software da Aol, era dar dois cliques no instalador e seguir os passos apresentados na tela.

Esses CDs eram empurrados goela abaixo das pessoas, que os recebiam pelo correio. Ou em caixas de cereais. Ou achando algum num buraco no sofá, ou tropeçando neles enquanto andavam na rua. Os CDs da Aol eram onipresentes. Era uma verdadeira praga, mas assim eram porque funcionavam.

Segundo Steve Case, então CEO da Aol, a empresa reservava 10% do faturamento por usuário na média de duração de cada contrato para promover o serviço via CDs. Essa média de permanência era de 25 meses, e nesse período a Aol faturava cerca de US$ 350, então ela tinha US$ 35 para conquistar cada novo cliente — em outras palavras, uma grana alta para distribuir CDs.

O pior é que o plano funcionou muito bem. Marketing direto costuma estar associado a ações mais segmentadas, onde o faturamento por cliente é mais alto e a ação, mais personalizada. O caso da Aol é fascinante por isso: é um marketing direto de massa — perdão pela (imagino) incorreção do termo, pessoas do marketing. Em dado momento, ainda segundo Case, a Aol registrava seis novos clientes por segundo.

Com o barateamento dos custos de produção e logística, e o retorno mais que comprovado dos CDs, a Aol dobrou a aposta. Em 1998, segundo Reggie Fairchild, gerente de produtos do Aol 4.0, eles monopolizaram a produção mundial de CDs:

“Quando lançamos o Aol 4.0 em 1998, a Aol usou TODA a produção de CDs do mundo por várias semanas. Pense nisso. Nenhum CD de música ou CD da Microsoft foi produzido durante aquele período.”

É CD da Aol que não acaba mais.
Foto: dehub/Flickr.

A versão 4.0 do programa foi um grande evento para a Aol. De acordo com esta reportagem da Cnet, o programa trazia novidades importantes e era fruto de dois anos de trabalho.

Em 10 anos apostando nesse marketing direto, de 1992 a 2002, a Aol saltou de 200 mil para 25 milhões de clientes nos Estados Unidos. Do IPO, em 1992, à fusão com a Time Warner, em 2000, o valor de mercado da Aol foi catapultado de US$ 70 milhões para US$ 150 bilhões.

Só que os anos 2000 chegaram e não foram tão generosos. A Aol se perdeu na evolução das tecnologias de acesso à Internet: não encontrou uma boa estratégia para substituir à dos CDs nas eras da banda larga e da Internet móvel. No final de 2009 a empresa se desmembrou da Time Warner e passou a focar em conteúdo, com propriedades como Huffington Post e Engadget, com direito a uma nova marca e uma missão meio esquisita estampada em seu site: “Estamos no negócio de ajudar as pessoas. Ponto.” Ok…

Mas não é tão fácil assim se livrar do passado, especialmente quando ele é lucrativo. Ao final de 2014 a Aol ainda tinha 2,2 milhões de assinantes do seu serviço de Internet discada. Eles renderam US$ 606 milhões à empresa ano passado e a divisão de assinaturas, que engloba esse pessoal da discada, teve um faturamento oito vezes maior que a de conteúdo no mesmo período.

O mercado que permeia e envolve a Internet é, às vezes, tão fascinante quanto as coisas incríveis que ele mesmo produz.

Foto do topo: goldtrout/Flickr.


Bônus: Clint Basinger, do Lazy Game Reviews, resolveu instalar o Aol 4.0 em um computador moderno semanas depois da publicação deste texto. O mais incrível é que funciona (com algumas gambiarras), mas o vídeo todo é bem divertido:

  • rodrigo

    caras, não estou brincando, era muito agressivo, lembro de ter uns 100 cds do de 600 horas, eles patrocinavam uma casa de show da cidade onde moro, lugar também onde eles davam aqueles papelões para carros, adesivos e uma infinidade de propagandas..

    • O exemplo do cereal que usei no texto foi baseado numa experiência própria. Se aqui no Brasil, onde a coisa não vingou, o marketing já era violento assim, imagine nos EUA…

      • Leooo

        Lembro em Maringá mesmo, em uma loja de eletrodomésticos (Arapuã, dudony ou casas bahias, não lembro ao certo) que tinha uma banca que ficava na rua com quantidades colossais de CDs da AOL, tinha vários deles em casa, mas nunca cheguei a utilizar já que a internet discada de casa vinha com um provedor da própria empresa telefônica, o que era bem comum na época.

  • Eu tinha vários CDs que vinham no jornal de domingo, mas na época não tinha computador para instalar. Lembro que uma das primeiras coisas que fiz quando meu pai comprou o primeiro computador da família (depois de desenhar no paint) foi instalar o AOL (acho que era o 6.0) e acessar a internet.

  • Alpha Delta Victor

    Tenho ótimas lembranças da Aol, usei bastante o serviço deles. Lembro de horas de conversa no AIM. Post nostálgico.

  • E pra quem quiser, ainda é possível criar um email @aol.com.br e tirar uma onda por ai.

    Endereço:

    https://my.screenname.aol.com/_cqr/login/login.psp?sitedomain=sns.mail.aol.com&seamless=novl&lang=pt&locale=BR&authLev=0&siteState=sid%3A408e1c98-d48d-4f5f-bb06-11db27867c12%7Cqp%3Alang%3Dpt%26locale%3Dbr%7Cld%3Amail.aol.com%7Cuv%3AAOL%7Cat%3ASNS%7Clc%3Apt_BR%7Crt%3ANEW_PHONE%7Csnt%3AScreenName%7C&offerId=webmail-pt-br

    O bom é que ele é pouco usado, e assim, é mais fácil um email sem combinações escrotas como fulano826382@..

    Usei MT os CDs da AOL…ainda tenho um lacrado aqui acreditam? ..

    Muita gente também usava no raio das bicicletas.. Bons tempos

  • Marlon J Anjos

    Nostálgico, quando conectei a internet pela primeira vez o Terra se chamava Zaz

  • Conta apagada

    “Esses CDs eram empurrados goela abaixo das pessoas, que os recebiam pelo correio. Ou em caixas de cereais. Ou achando algum num buraco no sofá, ou tropeçando neles enquanto andavam na rua. Os CDs da Aol eram onipresentes. Era uma verdadeira praga, mas assim eram porque funcionavam.” – Eu ri disto até dizer chega :p :)

    Edit ultra importante: os CDs à rodo de ontem é o equivalente aos “adwares” de hoje, pelo jeito, certo? :)

    Falando em CDs distribuídos a rodo, alguém aí se lembra de outros casos parecidos?

    Acho que poderia estender esta história falando da fase auge das conexões discadas, com a chegada dos “provedores gratuitos”, como o iG por exemplo.

    Não me passou pela cabeça que a Aol foi tão agressiva em marketing por aqui. Acho que ajudei uns a instalar o AOL na época de internet discada, mas depois me arrependi pois os custos eram altos demais.

    UOL, iG, Ibest, Terra (peguei um ódio tremendo desta última) e outras que começaram a oferecer serviços de internet em época de conexão discada, também fizeram bastante marketing e mais focada em conteúdo nacional.

    O ruim é que como consequência do sistema de “internet discada”, a legislação foi feita de tal forma que as operadoras de telefonia não poderiam concorrer com provedores de internet. O resultado? Quando a tecnologia ADSL chegou e se consolidou, obrigou todos a até hoje (até por aproveitamento de leigos – a Vivo vive oferecendo “serviços de provedores” para o sistema de internet fixa ADSL deles) a terem um provedor de conexão.

    • ochateador

      Tira uma dúvida.

      Se eu contratar um plano de internet (vivo por exemplo) eu preciso contratar um provedor ou não?

    • ochateador

      Tira uma dúvida.

      Se eu contratar um plano de internet (vivo por exemplo) eu preciso contratar um provedor ou não?

      • Conta apagada

        Não sei exatamente como está a lei, e pelo que sei vagamente, ela está modificada e diferente da antiga. Logo, tem que se pensar nas seguintes condições:

        – Provedor de acesso é o que faz a chamada “última milha”, que é o caminho entre sua casa e os roteadores da empresa de acesso.

        – Como hoje são pouquíssimos os casos de “acesso discado”, a maioria dos serviços são feitos pelos próprios provedores de telefonia, que hoje estão quase convertidos para provedores de comunicação.

        – Se é a própria operadora que faz o serviço, ela É a servidora, o provedor. Não necessita de um UOL, Terra, iG ou similar para fazer o acesso. Bastaria na verdade apenas usar o que chamam de “login genérico”, que é o acesso com senha aos serviços de provedor. Isso existe no 3G (basta prestar atenção nas APNs, geralmente é login e senha = nomedaempresa.

        – A contratação de um provedor foi obrigatório até a hora que descobriram que não precisava mais de um provedor para fazer o serviço, pois era algo que a lei proibia das operadoras de telefonia fazerem – prestar serviços de dados. Na prática, é dispensável um segundo provedor de acesso se o acesso é feito pela própria operadora, seja via ADSL, cabo ou outros meios de “última milha”.

        Hoje não é mais necessário mesmo um segundo provedor. Repetindo, usa-se um “login genérico” (basta pesquisar, normalmente a abusar.org tem estes logins com eles). E assim usar os serviços sem dores de cabeça. O maximo que acontece é telemarketing enchendo o saco para adquirir um provedor. Mas se achar a lei (não sei o número) que quebra a obrigatoriedade, basta mencionar ao atendente e ele para de encher o saco na hora.

        Porém, caso queira acessar os sites com paywall ou serviços extras, até que compensa pagar os provedores. Nisso considera o pacote acesso + serviços (e-mail, notícias, etc…).

  • O penúltimo parágrafo é o que mais assusta: o marketing e a expansão da AOL foram tão agressivos que mesmo hoje ainda existe uma base de usuários que simplesmente não trocou de serviço, mesmo tendo opções de banda larga no mercado. E isso ainda gera OITO vezes mais dinheiro para a empresa do que o pessoal que gera conteúdo por lá. Espantoso.

    • Eu acho que é mais provável que esses casos sejam de locais que simplesmente não são atendidos por nenhum serviço de banda larga.

      • Guilherme

        Ou gente que paga em débito automático no cartão. Meu pai já ficou pagando o provedor terra por uns 10 anos sem necessidade.

        • Harlley Sathler

          Era o que eu dizer. Conheço muita gente, principalmente mais velha, que continua pagando essas coisas porque acha que ainda é útil. Ou paga para manter o endereço de e-mail (os últimos assinantes do Terra que conheci pagavam por isso). O UOL também seguiu por essa linha de CDs por muito tempo! Meu primeiro contato em casa com a internet foi através de um CD desses. Eu devia ter uns 15 anos. Depois veio o iG e o resto ficou na história!

  • Essas mil horas da AOL em dial-up devem dar mais do que o limite de banda do 4G de muita operadora de hoje em dia.

  • São ótimos apoios para copos! Ainda tenho alguns com essa função. :-)

  • São ótimos apoios para copos! Ainda tenho alguns com essa função. :-)

    • Conta apagada

      Já vi também como:

      – Roda de carrinho
      – Árvore de Natal
      – Enfeite de loja
      – Freesbie
      – Testador de CDs
      – Espelho

      entre outros objetos…

  • Willguevara

    acho que o último caso dessa distribuição em massa de cd para promover produto, em um nível menor e nacional, foi a levelup colocando ragnarok em todo canto em todos os lugares e vias.

  • Louis

    Isso me lembrou o marketing de uma candidata à presidência ano passado em Minas Gerais que mandou pelos Correios muito material de campanha sem ninguém pedir. Depois de eleita a situação está no mesmo rumo do Aol, mas é provável que em 3 anos todo mundo esqueça.

    • João Cadidé

      Até aqui tem citar essa mulher? Supera, cara.

  • Rafael Gino

    Tinha 5 anos em 1999, lembro que toda hora correio chegava com cd, nem sabia direito o que um PC fazia na época, botava o CD no rádio pensando que era de musica e ele não tocava, me perguntava pra que diabos servia aquilo já que não tocava música. O jeito foi usar eles pra brincar de disco voador.